O Turismo Religioso no Século XXI: Entre a autenticidade da fé e a "disneyficação"

No panorama global do turismo, o segmento religioso emerge como uma das formas mais antigas e resilientes de deslocação humana, mas também como uma das mais desafiadoras nos tempos modernos. Neste artigo “Religious Tourism”, publicado na Tourism Geographies, a investigadora Jaeyeon Choe, docente da School for Business and Society da Universidade de Glasgow (Escócia), explora as múltiplas dimensões deste tipo de turismo, analisando a sua relevância histórica, o impacto socioeconómico e as tendências contemporâneas que o definem.


Choe sugere uma definição abrangente de turismo religioso, destacando que este "vai além da mera peregrinação espiritual" e reflete "a busca dos indivíduos por experiências significativas em locais com relevância espiritual, cultural ou histórica". Esta abordagem permite incluir quer os peregrinos devotos quer os viajantes seculares, interessados na exploração de patrimónios religiosos como forma de enriquecer o seu entendimento cultural.

Raízes Históricas e a expansão contemporânea

A ligação entre viagens e espiritualidade não é nova. Desde a antiguidade que as pessoas se deslocam para locais sagrados em busca de bênção, cura ou iluminação espiritual. Locais como Stonehenge, Jerusalém, Meca e Varanasi destacam-se como exemplos clássicos de centros de peregrinação ancestrais que continuam a atrair milhões de visitantes. Choe relembra que, no período medieval, estas viagens eram marcadas por "sacrifícios pessoais e uma devoção profunda, com os peregrinos muitas vezes enfrentando condições extremas para alcançar os seus destinos".

No entanto, o turismo religioso moderno expandiu-se para além das motivações estritamente espirituais. Como explica a autora, este tipo de turismo "evoluiu para incluir uma vasta gama de práticas e destinos que respondem às necessidades tanto espirituais como culturais e terapêuticas dos viajantes". Um exemplo notável é o Caminho de Santiago, que atrai tanto peregrinos religiosos quanto turistas à procura de reflexão pessoal e reconexão com a natureza.

A Comercialização dos Locais Sagrados

Um dos temas mais controversos abordados por Choe é a crescente comercialização dos destinos religiosos. A autora sublinha que locais como o Templo Shaolin, na China, ou a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, são frequentemente criticados pela sua transformação em atrações turísticas altamente mercantilizadas. Este fenómeno, descrito como "disneyficação", gera tensões entre a necessidade de sustentar economicamente os locais e a preservação da sua essência espiritual.

De acordo com Choe, “a linha entre a preservação autêntica e a exploração comercial é muitas vezes ténue, levantando questões sobre a perda de significado para os devotos e os impactos negativos nas comunidades anfitriãs”. Apesar dessas críticas, a autora reconhece que a comercialização também pode trazer benefícios, como a geração de receitas para a manutenção de patrimónios religiosos e o apoio a comunidades locais.

O Papel do Bem-Estar e da Espiritualidade Contemporânea

Outra vertente explorada no artigo é o papel do turismo religioso no bem-estar emocional e psicológico dos viajantes. Choe observa que, nos últimos anos, especialmente após a pandemia de COVID-19, há um interesse crescente por programas que combinam espiritualidade e saúde mental. Retiros espirituais, como os temple stays na Coreia do Sul, e caminhadas em trilhos religiosos são exemplos de como o turismo religioso se está a adaptar às necessidades da sociedade moderna.

A autora acrescenta que “estes programas oferecem aos participantes a oportunidade de desconectar-se das exigências do quotidiano, promovendo práticas como meditação, silêncio e a conexão com o sagrado”. Esta faceta terapêutica do turismo religioso está a ganhar relevância, atraindo não apenas devotos, mas também viajantes em busca de autoconhecimento e cura emocional.

Sustentabilidade e o futuro do Turismo Religioso

Jaeyeon Choe também discute os desafios de sustentabilidade associados ao turismo religioso, particularmente em destinos que recebem grandes fluxos de visitantes. Meca, por exemplo, acolhe milhões de peregrinos anualmente, exercendo uma pressão imensa sobre os recursos naturais e infraestruturas locais. A autora sublinha que “o turismo religioso pode ser um motor de desenvolvimento económico para regiões marginalizadas, mas é crucial que o crescimento seja gerido de forma sustentável”.

Nesse sentido, apela à necessidade de estratégias de gestão que incluam a participação das comunidades locais e a implementação de práticas ecológicas. Além disso, sugere que a digitalização possa desempenhar um papel importante no futuro do turismo religioso, tornando-o mais acessível para pessoas com mobilidade reduzida ou restrições financeiras, através de experiências virtuais de locais sagrados.

O artigo oferece uma análise rica e crítica sobre o turismo religioso, apresentando-o como um campo multifacetado, repleto de oportunidades e desafios. Desde a sua importância histórica até às dinâmicas modernas de comercialização e sustentabilidade, a autora demonstra como este tipo de turismo continua a moldar a forma como viajamos e nos conectamos com o mundo.

Ao destacar, por outro lado, o equilíbrio delicado entre autenticidade, comercialização e sustentabilidade, contribui para o debate sobre como preservar a essência espiritual dos destinos religiosos enquanto se responde às exigências do turismo contemporâneo. O turismo religioso, como bem sublinha a autora, não é apenas uma viagem aos lugares sagrados, mas uma jornada em direção ao autoconhecimento e à compreensão intercultural.

Tendências Contemporâneas

O turismo religioso atual tem evoluído para atender a diversas motivações, muitas vezes sobrepondo objetivos espirituais, culturais e terapêuticos. Choe identifica três tendências principais:

Espiritualidade e Bem-Estar: Em resposta à pandemia de COVID-19, há um interesse crescente no potencial terapêutico do turismo religioso. Programas como os “temple stays” na Coreia do Sul e no Japão destacam-se por melhorar o bem-estar emocional dos participantes, enquanto retiros espirituais em locais naturais, como montanhas e rios sagrados, oferecem uma experiência de rejuvenescimento mental.

Comercialização e Branding Nacional: Apesar do crescimento, o turismo religioso enfrenta críticas pela sua crescente comercialização. Locais como o Mosteiro Shaolin, na China, e a estátua do Grande Buda em Hong Kong são frequentemente acusados de perderem a sua essência espiritual devido à exploração económica e agendas políticas. Esta “disneyficação” de locais sagrados levanta questões sobre a autenticidade e os impactos culturais do turismo religioso.

Sustentabilidade e Desafios de Gestão: Embora o turismo religioso possa estimular a economia de regiões periféricas, como vilas e aldeias ao longo do Caminho de Santiago, também gera desafios, como a distribuição desigual dos benefícios económicos e o impacto ambiental de grandes concentrações de visitantes. A autora defende a necessidade de um planeamento sustentável, que envolva comunidades locais e promova práticas ecológicas.

Lacunas na Literatura e Propostas Futuras

Choe critica a predominância de abordagens eurocêntricas e positivistas na literatura sobre turismo religioso, sublinhando a necessidade de metodologias mais criativas e de maior diversidade cultural na pesquisa. Propõe que futuros estudos explorem:

  • Perspetivas das comunidades locais: Analisar como é que os residentes experienciam os impactos do turismo religioso, incluindo os desafios relacionados com acessibilidade e gestão de recursos.
  • Impactos ambientais e sustentabilidade: Estudar os efeitos de grandes eventos religiosos nas mudanças climáticas e a necessidade de estratégias de mitigação.
  • Digitalização e turismo virtual: Investigar como é que tecnologias como a realidade virtual podem tornar o turismo religioso mais inclusivo e acessível para pessoas com mobilidade reduzida ou outras limitações.


Fonte: Choe, J. (2024). Religious Tourism. Tourism Geographies. DOI: 10.1080/14616688.2024.2423168. (link)

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