Olivoturismo: Um caminho para a sustentabilidade e para o desenvolvimento

O olivoturismo, enquanto segmento emergente do turismo sustentável, está a transformar territórios mediterrânicos ao combinar património cultural, práticas agrícolas e desenvolvimento económico. Este conceito, que alia a tradição dos olivais à inovação turística, é analisado no estudo “From the Enhancement of Olive Heritage to Territorial Development: Oleotourism”, de Julie Deramond, da Universidade de Avinhão (França) e Francisco Teixeira Pinto Dias, do Instituto Politécnico de Leiria. Recém-publicado na Revista Internacional de Turismo, Empresa y Territorio, o artigo explora como é que Portugal, França e Grécia têm utilizado o olivoturismo para revitalizar economias rurais, promover a sustentabilidade e reforçar a identidade cultural.

Idanha-a-Nova assumiu o azeite como um vetor de desenvolvimento económico e turístico, tendo recuperado os Lagares de Proença-a-Velha como Núcleo Museológico do Azeite onde se produz o néctar da Oliveira (Foto Município de Idanha-a-Nova)

Como sublinham os autores, “o olivoturismo é mais do que um modelo económico; é uma forma de preservar o património, fortalecer a coesão comunitária e promover práticas agrícolas regenerativas” (p. 203).

Portugal: Tradição e Sustentabilidade nos Olivais

Portugal é um dos líderes globais na produção de azeite, sendo reconhecido pela qualidade excecional dos seus produtos. Este contexto tem impulsionado a expansão do olivoturismo, particularmente em regiões como o Alentejo, o Douro e Idanha-a-Nova.

Idanha-a-Nova é um exemplo notável de como o olivoturismo pode revitalizar territórios de baixa densidade populacional. Este município tem promovido iniciativas que vão desde colheitas comunitárias até degustações de azeite e workshops sobre práticas sustentáveis. Estas atividades não só envolvem as comunidades locais, mas também criam experiências imersivas para os turistas. Segundo o estudo, “as práticas em Idanha-a-Nova demonstram como o olivoturismo pode ser um instrumento eficaz para preservar o património cultural enquanto dinamiza a economia local” (p. 207).

Outro caso de sucesso é o das Rotas do Azeite no Alentejo, onde lagares históricos são transformados em espaços de visitação. Os turistas podem participar em provas de azeite, aprender sobre técnicas de produção e explorar os olivais. Esta abordagem integrada posiciona o Alentejo como uma referência no turismo sustentável, reforçando a ligação entre tradição e inovação.

No Douro, o olivoturismo surge como um complemento natural ao enoturismo. Roteiros que combinam degustações de azeite e vinho têm atraído turistas nacionais e internacionais, interessados em explorar a essência da dieta mediterrânica. Estas iniciativas ajudam a diversificar a oferta turística e a criar sinergias entre setores complementares.

Grécia: Olivoturismo e Património Cultural

Na Grécia, o olivoturismo é profundamente enraizado na história e na mitologia. Os olivais não são apenas recursos económicos, mas também símbolos culturais que refletem a identidade das comunidades locais. O estudo analisa projetos em regiões como Creta e Peloponeso, onde o olivoturismo tem sido utilizado para preservar tradições e promover o turismo sustentável.

Em Creta, os visitantes podem explorar lagares históricos que datam do período minoico, participando em visitas guiadas que integram história, cultura e gastronomia. Uma experiência comum é a participação em workshops de culinária que ensinam a preparar pratos tradicionais utilizando azeite local.

Já no Peloponeso, iniciativas como o projeto Olive Routes oferecem aos turistas a oportunidade de acompanhar todo o ciclo de produção, desde a colheita até à extração do azeite. Estas experiências imersivas promovem uma ligação mais profunda entre os visitantes e as comunidades locais, ao mesmo tempo que educam sobre práticas agrícolas sustentáveis.

França: Inovação e Turismo de Luxo

A França destaca-se pela abordagem inovadora no olivoturismo, combinando a produção de azeite com experiências de luxo e bem-estar. Regiões como a Provença têm utilizado o olivoturismo para atrair um público exigente, interessado em experiências exclusivas e sustentáveis.

O estudo destaca o exemplo da Moulin Saint-Michel, uma propriedade histórica que oferece visitas guiadas, provas de azeite e eventos culturais. Além disso, muitos produtores na Provença têm integrado o olivoturismo com spas e retiros de bem-estar, promovendo o uso de azeite em tratamentos de beleza e saúde.

Outro projeto relevante é o Parcours des Oliviers, uma rota cultural que combina visitas a olivais, degustações e workshops sobre práticas agrícolas ecológicas. Esta iniciativa reforça a ligação entre turismo e preservação ambiental, educando os visitantes sobre o impacto das alterações climáticas nos olivais mediterrânicos.

O potencial transformador do Olivoturismo

O olivoturismo representa uma abordagem integrada que combina sustentabilidade ambiental, valorização cultural e desenvolvimento económico. Os autores do estudo destacam que “o sucesso do olivoturismo depende de estratégias que promovam a autenticidade, a colaboração entre stakeholders e o envolvimento ativo das comunidades locais” (p. 215). Oferece também uma alternativa viável para territórios rurais que enfrentam desafios como o despovoamento e a falta de oportunidades económicas. Ao atrair turistas interessados em experiências autênticas, o segmento não só gera receitas, mas também ajuda a preservar paisagens culturais e práticas tradicionais.

O estudo de Deramond e Dias sublinha que o olivoturismo não é apenas uma atividade turística, mas uma abordagem integrada que combina património, sustentabilidade e desenvolvimento económico. O setor tem demonstrado ser uma ferramenta poderosa para:

  • Preservar práticas agrícolas e saberes ancestrais, muitas vezes ameaçados pela modernização.
  • Dinamizar economias locais, criando emprego e fortalecendo as redes de produção e distribuição.
  • Promover a sustentabilidade ambiental, ao valorizar práticas agrícolas regenerativas e incentivar a conservação dos olivais.
  • Envolver as comunidades locais, fortalecendo o sentido de pertença e coesão social.

Apesar do seu potencial, o olivoturismo enfrenta desafios como a falta de coordenação entre stakeholders e a necessidade de estratégias de marketing mais eficazes. Os autores defendem que a colaboração entre produtores, operadores turísticos e autoridades locais é essencial para maximizar os benefícios do setor.

Os casos de Portugal, França e Grécia demonstram que o olivoturismo pode ser adaptado a diferentes contextos culturais e económicos, mantendo a autenticidade e a identidade de cada território. Com uma abordagem integrada e colaborativa, o olivoturismo pode emergir como um motor de transformação positiva em toda a região mediterrânica.

O estudo conclui que o olivoturismo tem um impacto significativo em três dimensões principais:

  1. Preservação do património cultural e natural: Ao valorizar práticas agrícolas e tradições locais, o olivoturismo contribui para a proteção dos recursos culturais e ambientais.
  2. Desenvolvimento económico sustentável: Este segmento gera emprego, promove o consumo de produtos locais e cria oportunidades para comunidades rurais.
  3. Promoção de práticas sustentáveis: O olivoturismo incentiva práticas agrícolas regenerativas e sensibiliza os turistas para a importância da sustentabilidade.


Referência: Deramond, J., & Teixeira Pinto Dias, F. (2024). From the Enhancement of Olive Heritage to Territorial Development: Oleotourism. Revista Internacional de Turismo, Empresa y Territorio, 8(2), 200-220. DOI: 10.21071/riturem.v8i2.17864.


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