O Turismo e a Agenda 2030: Potencial e desafios na implementação dos ODS

O artigo “The Place of Tourism in the Implementation of the Sustainable Development Goals at National Level”, recém-publicado no último volume da série Sustainable Tourism, explora a contribuição do turismo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Através de uma análise dos Relatórios Nacionais Voluntários (VNRs) de 38 Estados-Membros da ONU, o estudo de Giulio Pattanaro, da Universidade de Veneza, revela como o turismo está a ser integrado na implementação da Agenda 2030 e identifica áreas prioritárias para o desenvolvimento sustentável do setor.

Foto de Porapak Apichodilok

O turismo desempenha um papel singular no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), devido à sua capacidade de conectar pessoas, economias e culturas. Apesar de ser mencionado explicitamente em apenas três ODS — ODS 8 (trabalho digno e crescimento económico), ODS 12 (consumo e produção responsáveis) e ODS 14 (conservação dos recursos marinhos) —, Giulio Pattanaro sublinha que o impacto do turismo vai muito além destes três objetivos. O setor possui uma transversalidade que permite contribuir para todos os 17 ODS, direta ou indiretamente.

O Turismo e os ODS: Uma relação estratégica

De acordo com o autor, o turismo é uma das indústrias mais inclusivas do mundo, empregando cerca de 10% da força de trabalho global. “A sua capacidade de criar emprego em regiões periféricas, muitas vezes marginalizadas de outras atividades económicas, faz do turismo um motor para o crescimento inclusivo e sustentável”. Essa inclusão reflete-se especialmente em iniciativas que promovem o empreendedorismo entre mulheres e jovens, dois grupos frequentemente sub-representados em outros setores.

No âmbito do ODS 12, o turismo desempenha um papel essencial na promoção de padrões de consumo e produção mais responsáveis. O autor cita o exemplo de destinos que adotaram práticas de economia circular, como o reaproveitamento de resíduos orgânicos gerados por restaurantes e hotéis para produção de energia ou fertilizantes. Estas práticas, além de reduzirem os impactos ambientais, servem como modelos para outras indústrias.

A relação entre turismo e ODS 14 é igualmente relevante, particularmente em destinos costeiros e ilhas que dependem do turismo para a sua subsistência económica. Pattanaro observa que “destinos costeiros têm a oportunidade — e a responsabilidade — de integrar estratégias de conservação marinha nas suas operações turísticas”. Exemplos incluem projetos de ecoturismo que financiam a proteção de recifes de coral e a educação ambiental para visitantes e comunidades locais.

Para além dos ODS mais diretamente relacionados, o turismo também pode desempenhar um papel catalisador em objetivos como o ODS 4 (educação de qualidade), ao fomentar programas de formação e capacitação em comunidades locais, e o ODS 5 (igualdade de género), através da criação de oportunidades de liderança para mulheres em organizações turísticas.

Pattanaro destaca ainda a dimensão cultural do turismo, que contribui para o ODS 16 (paz, justiça e instituições eficazes). “O turismo pode ser uma ponte entre culturas, promovendo o diálogo intercultural e o entendimento mútuo, elementos fundamentais para a construção de sociedades pacíficas e resilientes” (p. 15).

No entanto, o autor alerta que o potencial do turismo para contribuir para os ODS não se realiza automaticamente. Para que o setor seja efetivamente um catalisador de mudanças positivas, é necessário um planeamento cuidadoso, a implementação de políticas públicas alinhadas com os objetivos globais e a colaboração ativa entre governos, empresas e comunidades locais. “A transversalidade do turismo é tanto uma força quanto um desafio, exigindo uma abordagem integrada que evite os impactos negativos do setor e maximize os benefícios para todos os stakeholders” (p. 16).

A visão apresentada por Pattanaro reforça que o turismo é muito mais do que uma atividade económica; é um instrumento poderoso para alcançar o desenvolvimento sustentável, capaz de transformar sociedades, preservar o ambiente e criar um futuro mais inclusivo e resiliente.

O estudo baseia-se numa análise detalhada dos Relatórios Nacionais Voluntários (VNRs) submetidos por 38 Estados-Membros da ONU em 2023. Estes relatórios, apresentados no Fórum Político de Alto Nível das Nações Unidas, são instrumentos voluntários que documentam os progressos nacionais na implementação dos ODS.

Pattanaro identifica 168 associações entre o turismo e os ODS nos VNRs de 2023, com destaque para:

ODS 8: Trabalho digno e crescimento económico (28 associações);

ODS 12: Consumo e produção responsáveis (19 associações);

ODS 9: Infraestruturas resilientes e inovação sustentável (16 associações);

ODS 14: Conservação dos recursos marinhos (16 associações).

O autor salienta que o turismo desempenha um papel crítico em políticas que promovem crescimento económico sustentável, proteção ambiental e inclusão social. Exemplos incluem programas que capacitam comunidades locais para gerir negócios turísticos ou iniciativas que promovem práticas ecológicas em destinos costeiros.

Barreiras e Oportunidades

Apesar do seu potencial, o turismo enfrenta desafios significativos na integração com os ODS. O artigo destaca barreiras como a falta de políticas co-criadas, a necessidade de financiamento inovador e a ausência de indicadores robustos para monitorizar impactos.

Por outro lado, o estudo aponta oportunidades promissoras, incluindo:

  • Parcerias multissetoriais (ODS 17): Colaborações entre governos, empresas e comunidades locais podem acelerar o progresso em direção aos ODS.
  • Inovação tecnológica: Ferramentas digitais e sistemas de gestão avançados podem melhorar a eficiência e a sustentabilidade do setor.
  • Educação e sensibilização: Capacitar turistas e operadores para adotar práticas responsáveis é essencial para alinhar o turismo com os objetivos globais.

Pattanaro argumenta que o aumento do número de ODS associados ao turismo nos VNRs de 2023, em comparação com anos anteriores, reflete uma maior conscientização sobre o papel estratégico do setor. O autor alerta, porém, que mencionar o turismo nos relatórios não garante a implementação de ações concretas, apelando para uma monitorização mais rigorosa e uma maior integração de políticas públicas e estratégias empresariais​.

Conclusões

  • O turismo é reconhecido como um elemento transversal na implementação dos ODS, com impacto direto ou indireto em todos os 17 objetivos.
  • Os ODS 8, 12, 9 e 14 são os mais frequentemente associados ao turismo, destacando-se áreas como crescimento económico, consumo responsável e proteção ambiental.
  • Desafios como a falta de financiamento inovador e indicadores eficazes precisam de ser superados para maximizar o impacto do turismo na Agenda 2030.
  • Parcerias multissetoriais e inovação tecnológica são oportunidades chave para alinhar o turismo com os ODS.


Fonte: Pattanaro, G. (2024). The Place of Tourism in the Implementation of the Sustainable Development Goals at National Level. Sustainable Tourism XI, 13-19. Link: https://tinyurl.com/yc8aay6z


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