Riscos percebidos e sustentabilidade: Uma nova abordagem para o turismo em territórios de baixa densidade

Um estudo recente realizado por uma equipa de investigadores de Portugal e da Galiza, publicado na revista Journal of Destination Marketing & Management em agosto de 2024, traz à luz a importância dos riscos percebidos no desenvolvimento sustentável do turismo em territórios de baixa densidade. A investigação revela que a forma como turistas e residentes percebem os riscos pode influenciar significativamente a adoção de práticas sustentáveis, oferecendo novas perspetivas para o setor.

Miradouro de São Brás (foto Município de Lamego

O artigo, intitulado "Navigating uncertainty: The role of perceived risks in supporting sustainable tourism development in low-density territories" foi conduzido por uma equipa de investigadores composta por Teresa Vila-López, Isabel Pinto, Mónica Duarte, e José Carlos García, especialistas em turismo sustentável e desenvolvimento regional. Publicado na prestigiada revista Journal of Destination Marketing & Management, este estudo analisa como a perceção dos riscos, quer por turistas quer por residentes, pode apoiar ou dificultar o desenvolvimento sustentável do turismo em regiões de baixa densidade populacional, tais como áreas rurais e regiões menos desenvolvidas economicamente.

Segundo os autores, "os riscos percebidos pelos turistas, como desastres naturais, falta de infraestruturas adequadas e impactos ambientais, desempenham um papel crucial na decisão de adotar ou não práticas de turismo sustentável." Esta afirmação sublinha a complexidade de se promover um turismo que seja ao mesmo tempo responsável e atrativo para os visitantes. O estudo utilizou uma combinação de métodos qualitativos e quantitativos, incluindo um inquérito disseminado entre centenas de moradores do concelho de Lamego, território do norte português de baixa densidade.

Os resultados mostram que, embora os turistas estejam cada vez mais conscientes da importância do turismo sustentável, existe uma considerável incerteza sobre a sua eficácia e viabilidade. Muitos turistas ainda hesitam em adotar práticas sustentáveis por recearem que estas possam comprometer a qualidade da sua experiência ou que não sejam economicamente sustentáveis. Por exemplo, um inquirido no estudo afirmou: "Estou interessado em apoiar práticas sustentáveis, mas não tenho a certeza se elas oferecem o mesmo nível de conforto e serviço que as opções tradicionais."

Por outro lado, os residentes locais, que frequentemente dependem do turismo para a sua subsistência, demonstram preocupações relacionadas com a capacidade das infraestruturas existentes para suportar um aumento no fluxo turístico, especialmente durante a época alta. A equipa de investigação concluiu que "a falta de investimentos em infraestruturas e a má gestão dos recursos naturais são vistos como riscos significativos que podem prejudicar a sustentabilidade a longo prazo."

O estudo é particularmente relevante no contexto atual de crescente interesse pelo turismo sustentável, onde as regiões de baixa densidade são frequentemente vistas como destinos emergentes. Estas regiões possuem recursos naturais e culturais valiosos, mas enfrentam desafios significativos em termos de infraestrutura e gestão de recursos. A investigação de Vila-López, Pinto, Duarte, e García fornece insights valiosos para gestores de destinos e decisores políticos sobre como equilibrar a promoção do turismo com a proteção e preservação destes recursos.

O artigo destaca que a comunicação eficaz entre os gestores de destinos turísticos e as comunidades locais é fundamental para mitigar os riscos percebidos. Os autores defendem que "a comunicação deve focar-se em educar tanto os turistas como os residentes sobre os benefícios tangíveis do turismo sustentável e em demonstrar como esses benefícios superam os riscos." Esta abordagem é essencial para construir confiança e promover práticas turísticas que sejam não apenas sustentáveis, mas também aceitáveis e desejáveis para todas as partes envolvidas.

Recomenda ainda a implementação de políticas de gestão de riscos que envolvam todas as partes interessadas, garantindo que o turismo sustentável seja resiliente às incertezas e aos desafios que surgem em territórios de baixa densidade. Estes desafios incluem a vulnerabilidade a desastres naturais, a escassez de recursos financeiros para investir em infraestrutura adequada e a necessidade de preservar o património cultural e natural que torna estas regiões únicas.

Principais Conclusões:

Influência dos Riscos Percebidos: Os riscos percebidos, como desastres naturais e falta de infraestruturas, afetam diretamente a disposição dos turistas e dos residentes em apoiar o turismo sustentável.

Necessidade de Comunicação Eficaz: Para superar as barreiras associadas aos riscos percebidos, é essencial uma comunicação transparente que destaque os benefícios do turismo sustentável.

Políticas de Gestão de Riscos: A criação de políticas robustas que envolvam todas as partes interessadas é crucial para garantir que o desenvolvimento turístico seja sustentável e resiliente, especialmente em regiões de baixa densidade.

Relevância para Territórios de Baixa Densidade: Regiões de baixa densidade possuem potencial significativo para o desenvolvimento de turismo sustentável, mas requerem estratégias cuidadosas para mitigar os riscos e maximizar os benefícios.

Este estudo fornece uma análise detalhada e inovadora sobre os desafios enfrentados por territórios de baixa densidade na implementação de práticas turísticas sustentáveis. Ao reconhecer e abordar os riscos percebidos, gestores e políticos podem desenvolver estratégias mais eficazes que promovam o turismo sustentável, assegurando simultaneamente a proteção do património natural e cultural dessas regiões. 

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