Desafios da gestão sustentável do turismo em pequenas cidades históricas: Perceções dos gestores de alojamento

Em artigo publicado no último número da Revista Portuguesa de Estudos Regionais, os investigadores Isabel Vieira, Ana Paula Rodrigues, Elisa Alén e Nuno Sousa exploram a implementação de práticas de Desenvolvimento Turístico Sustentável (DTS) em pequenas cidades históricas, analisando especificamente as perceções e desafios enfrentados pelos gestores de alojamento. A pesquisa, centrada na cidade de Lamego, revela lacunas significativas na adoção de princípios de sustentabilidade e os impactos de fatores externos, como a pandemia de COVID-19, nas estratégias de gestão.

Centro histórico de Lamego (foto de Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0)

A sustentabilidade no turismo é uma preocupação crescente, especialmente em destinos com grande valor patrimonial, como as pequenas cidades históricas. No artigo "Desafios da Gestão Sustentável do Turismo numa Pequena Cidade Histórica na Perspetiva dos Gestores de Alojamento", publicado na edição 69 da Revista Portuguesa de Estudos Regionais, os autores Isabel Vieira, Ana Paula Rodrigues, Elisa Alén e Nuno Sousa destacam o papel crucial que os gestores de alojamento desempenham na promoção do Desenvolvimento Turístico Sustentável (DTS) nessas regiões. O estudo, focado na cidade de Lamego, procura compreender as atitudes e perceções desses gestores sobre a implementação de práticas sustentáveis, além de identificar os principais obstáculos e oportunidades no processo.

A investigação utilizou uma abordagem qualitativa, recorrendo à Análise Fenomenológica Interpretativa (IPA), que permite investigar como os gestores de alojamento interpretam as suas experiências em relação à sustentabilidade. Os dados foram recolhidos através de entrevistas semi-estruturadas realizadas com 15 gestores de diferentes tipos de alojamento em Lamego, desde hotéis a alojamentos locais. O software MAXQDA20 foi utilizado para transcrever e analisar os dados, permitindo uma organização sistemática dos temas emergentes.

Os resultados revelam que, embora os gestores de alojamento em Lamego reconheçam a importância das práticas sustentáveis, enfrentam desafios significativos na sua implementação. Muitos referem que a falta de apoio estatal, a burocracia e as limitações financeiras dificultam a adoção de práticas de DTS. Além disso, fatores macroeconómicos, como a pandemia de COVID-19, exacerbaram as dificuldades de gestão, forçando muitos a adaptar os seus modelos de negócio.

Principais Temas Identificados

  • Oferta Turística e Planeamento: Os gestores expressaram preocupações sobre a oferta turística da cidade, apontando para a falta de estratégias de desenvolvimento coordenadas entre as entidades públicas e privadas. Verificou-se uma ausência de iniciativas que promovam a diversificação da oferta cultural e a melhoria das infraestruturas, que são consideradas essenciais para prolongar a estadia dos turistas.
  • Impactos do Turismo: Embora os gestores reconheçam o potencial económico positivo do turismo, muitos destacam os impactos negativos, como a sazonalidade e a massificação em determinadas épocas do ano. Estes fatores limitam a capacidade de adoção de práticas sustentáveis, uma vez que a instabilidade no fluxo de turistas dificulta o planeamento a longo prazo.
  • Práticas Sustentáveis: As práticas sustentáveis mais comuns referidas pelos gestores envolvem a gestão eficiente de recursos, como água e energia, com o uso de painéis solares e outras soluções tecnológicas. No entanto, a maioria dos gestores admite que não possui uma política de sustentabilidade bem definida, devido aos custos elevados e à falta de incentivos governamentais.
  • Fatores de Risco e Aprendizagens: A pandemia de COVID-19 foi apontada como um fator de grande impacto nas práticas de gestão. Muitos gestores referiram que tiveram de reduzir custos e adaptar os seus negócios às novas exigências, como o self check-in e a redução de intermediários nas plataformas de reservas. Apesar das dificuldades, a experiência resultou em aprendizagens importantes, nomeadamente a necessidade de maior flexibilidade e resiliência no setor.

Conclusões Principais

  • Reconhecimento da sustentabilidade, mas com obstáculos: Os gestores reconhecem a importância do DTS, mas a falta de conhecimento especializado e de recursos financeiros dificulta a implementação completa dessas práticas nos seus negócios.
  • Impacto dos fatores macroeconómicos: A pandemia demonstrou a vulnerabilidade do setor turístico em pequenas cidades, forçando adaptações rápidas. O impacto de fatores externos, como crises económicas e mudanças políticas, é um desafio constante para a gestão sustentável.
  • Lacunas na colaboração público-privada: Os gestores sublinham a necessidade de uma maior colaboração entre o setor público e o privado para desenvolver estratégias de turismo que sejam coerentes e eficazes na promoção da sustentabilidade. A falta de iniciativas coordenadas limita o potencial de crescimento do setor.
  • Práticas sustentáveis predominantemente ambientais: As práticas adotadas pelos gestores estão maioritariamente focadas na gestão ambiental (água e energia), mas há uma ausência significativa de práticas que envolvam a dimensão social e cultural da sustentabilidade.

Este estudo contribui de forma original para a literatura sobre o Desenvolvimento Turístico Sustentável ao focar-se nas perceções dos gestores de alojamento em pequenas cidades históricas. Os resultados sublinham a necessidade de capacitação dos gestores e de uma maior integração das práticas sustentáveis nos modelos de negócios. O artigo também aponta para a importância de uma estratégia mais clara e articulada entre o setor público e privado para maximizar os benefícios económicos e culturais do turismo, preservando ao mesmo tempo o património histórico e natural.


Fonte: Vieira, I., Rodrigues, A. P., Alén, E., & Sousa, N. (2024). Desafios da Gestão Sustentável do Turismo numa Pequena Cidade Histórica na Perspetiva dos Gestores de Alojamento. Revista Portuguesa de Estudos Regionais, 69, 57-78. https://doi.org/10.59072/rper.vi69.632

Comentários