Turismo e Sustentabilidade: A Lenta adesão às calculadoras de pegada ecológica na academia e na indústria
Com a crescente necessidade de mitigar os impactos ambientais do turismo, estudo recente de três investigadores portugueses, publicado este mês no Journal of Infrastructure, Policy and Development, explora a utilização de calculadoras de pegada ecológica no setor turístico. O artigo revela a marginalidade do turismo nas discussões sobre estas ferramentas nos últimos três anos e propõe um caminho para a sua integração mais ampla em práticas sustentáveis.
O turismo, enquanto atividade com impacto ambiental significativo, tem despertado um interesse crescente na aplicação de ferramentas que permitam avaliar e mitigar esses efeitos. Entre essas ferramentas, destacam-se as calculadoras de pegada ecológica, que medem os impactos das atividades humanas em termos de emissões de carbono, consumo de água e outras formas de pegada ambiental. No entanto, conforme evidencia este estudo "Exploring the Application and Future Development of Footprint Calculators in the Tourism Industry", realizado por Giovana Goretti Feijó Almeida, Alexandra Lavaredas e Paulo Almeida, do Instituto Politécnico de Leiria, o uso destas calculadoras no contexto do turismo tem recebido pouca atenção nas publicações científicas indexadas nos últimos três anos.
O estudo segue o método de revisão de escopo (scoping review), adotando uma abordagem qualitativa e exploratória para mapear a literatura científica sobre calculadoras de pegada ecológica com foco no setor turístico, durante o período de 2020 a 2023. A pesquisa utilizou a base de dados Scopus, e a seleção dos estudos relevantes foi feita a partir do termo “calculadora de pegada ecológica”. Foram incluídos apenas artigos completos, publicados em revistas indexadas na Scopus e que abordassem diretamente o uso destas calculadoras em contextos turísticos.
Foram identificados 38 documentos que mencionavam a utilização de calculadoras. No entanto, após a aplicação dos critérios de inclusão, apenas seis artigos foram considerados relevantes, destacando uma lacuna significativa na literatura sobre o uso dessas ferramentas no setor turístico.
A análise revelou que, embora o número de publicações sobre calculadoras de pegada ecológica tenha permanecido relativamente constante de 2021 a 2023, com um pico de 14 publicações em 2022, o enfoque no turismo é marginal. Apenas seis estudos se centraram diretamente na aplicação de calculadoras de pegada ecológica no turismo. Desses, três abordaram o turismo em 2023, um em 2022, e dois em 2021. Este facto sublinha a necessidade de uma maior integração do setor turístico nas discussões sobre sustentabilidade e ferramentas de avaliação ambiental.
Tipos de Calculadoras de Pegada Ecológica no Turismo
- Calculadora de Pegada de Carbono: Focada nas emissões de gases de efeito estufa, resultantes de atividades como transporte, alojamento e consumo de energia no setor turístico. Estas calculadoras são essenciais para quantificar o impacto do turismo em termos de emissões de CO2 e para ajudar a desenvolver estratégias de mitigação.
- Calculadora de Pegada Hídrica: Avalia o consumo de água, especialmente relevante em destinos turísticos com recursos hídricos limitados. Considera a quantidade de água utilizada em diferentes atividades turísticas, como irrigação, alimentação e consumo doméstico.
- Calculadora de Pegada Social: Menos comum na literatura, esta calculadora avalia os impactos sociais das atividades turísticas, incluindo a relação com as comunidades locais, o bem-estar dos trabalhadores e a utilização de recursos humanos.
A revisão identificou que as calculadoras de pegada ecológica aplicadas ao turismo enfrentam desafios significativos, incluindo a dificuldade em obter dados precisos sobre consumo de recursos e emissões de gases de efeito estufa. Além disso, os estudos indicam uma predominância de abordagens qualitativas, com uma carência de estudos quantitativos que poderiam oferecer uma análise mais abrangente e precisa dos impactos ambientais do turismo.
Os autores sugerem que o desenvolvimento de novas metodologias e a aplicação de abordagens mistas (qualitativas e quantitativas) podem melhorar a eficácia dessas ferramentas no setor. Por exemplo, uma abordagem integrada que considere tanto os impactos ambientais como os sociais poderia proporcionar uma visão mais holística dos desafios e oportunidades para a sustentabilidade no turismo.
O estudo conclui que o recurso a calculadoras de pegada ecológica no setor turístico ainda é limitado e marginal nas discussões científicas recentes. No entanto, essas ferramentas têm um potencial significativo para promover práticas sustentáveis, desde que sejam adaptadas para refletir as especificidades do turismo. Os autores enfatizam a necessidade de uma maior integração destas ferramentas nas políticas públicas de turismo e no desenvolvimento de práticas empresariais sustentáveis.
Os resultados sugerem que, para que o turismo contribua efetivamente para os objetivos de desenvolvimento sustentável, é essencial expandir o uso de calculadoras de pegada ecológica e integrar estas ferramentas em estratégias mais amplas de sustentabilidade. É destacada ainda a importância de iniciativas educativas para sensibilizar turistas e empresas sobre o impacto das suas escolhas e para promover práticas mais responsáveis e sustentáveis.
Perspetivas Futuras
O estudo propõe uma agenda de investigação futura que inclui:
- Desenvolvimento de novas metodologias: Incentivar o investimento em novas abordagens para calcular a pegada ecológica no turismo, adaptadas às especificidades de diferentes destinos e tipos de turismo.
- Mitigação dos impactos socioambientais: Explorar práticas de gestão sustentável que minimizem o consumo de recursos naturais e promovam a educação ambiental entre turistas e empresas.
- Tecnologias digitais: Investigar o potencial das tecnologias digitais para monitorizar e mitigar o impacto das atividades turísticas.
- Políticas Públicas Sustentáveis: Analisar a eficácia das políticas públicas de turismo sustentável usando ferramentas digitais.
Fonte: Almeida, G. G. F., Lavaredas, A., & Almeida, P. (2024). Exploring the application and future development of footprint calculators in the tourism industry. Journal of Infrastructure, Policy and Development, 8(9), 6779. https://doi.org/10.24294/jipd.v8i9.6779

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