Os constrangimentos da Geração Z no turismo ético: Desafios intrínsecos e pressões sociais

O estudo "Identifying Constraints on Gen Z’s Path toward Ethical Tourism Consumption and Practices" explora as barreiras que impedem a Geração Z de adotar práticas de turismo ético, desvendando as influências psicológicas, sociais e estruturais. Realizado por quatro investigadorers de universidades finlandesas e francesas, o estudo contribui para a literatura sobre consumo ético, revelando a complexidade das decisões de viagem na "geração mais verde".


Nos últimos anos, a Geração Z, nascida entre meados da década de 1990 e 2010, tem-se destacado pelo crescente interesse no consumo ético, especialmente em resposta aos desafios ambientais e sociais globais. Apesar do entusiasmo pela sustentabilidade, esta geração enfrenta obstáculos significativos ao tentar adotar práticas éticas no turismo. O artigo publicado na Journal of Sustainable Tourism analisa os entraves que limitam o envolvimento da Geração Z no turismo ético, utilizando o conceito de Theory of Constraints (TOC) para categorizar as barreiras em intrapessoais, interpessoais e estruturais. Este modelo oferece uma visão abrangente das dinâmicas que influenciam as escolhas de viagem da Geração Z, abordando fatores que vão além das intenções declaradas e revelam as dificuldades de implementação​.

O estudo baseia-se numa abordagem qualitativa e interpretativa, com entrevistas a membros da Geração Z em França. Através de uma amostra intencional, os participantes foram selecionados através da plataforma I-Boycott, dedicada ao consumo ético. Esta plataforma serviu de base para uma amostra diversificada, com entrevistas que exploraram os obstáculos enfrentados ao tentar fazer escolhas éticas no turismo. O estudo analisa as respostas através da grounded theory, organizando os dados em três categorias de barreiras inter-relacionadas​.

Identifica três tipos principais de obstáculos que dificultam o consumo ético no turismo pela Geração Z: intrapessoais, interpessoais e estruturais. Estas barreiras operam de forma interdependente, gerando uma complexa teia de influências que restringem a capacidade dos jovens de adotar práticas sustentáveis.

Os autores sugerem que estratégias direcionadas, como campanhas de sensibilização para reduzir o estigma e iniciativas de subsídios para opções sustentáveis, poderiam mitigar algumas das restrições enfrentadas pelos jovens. A investigação evidencia ainda que a promoção de opções éticas acessíveis pode ajudar a quebrar o ciclo de inércia de consumo e incentivar a Geração Z a adotar práticas de turismo mais sustentáveis.

1. Barreiras Intrapessoais

As barreiras intrapessoais incluem conflitos internos, como dissonância cognitiva e aversão ao risco. A dissonância cognitiva ocorre quando as crenças éticas dos participantes entram em conflito com os comportamentos práticos, resultando em frustração e culpa. Os jovens relatam dificuldades em escolher opções de transporte sustentável, como viagens de comboio em vez de avião, por razões de conveniência e custo, mesmo reconhecendo o impacto ambiental das suas escolhas: "Sinto-me um pouco hipócrita. Falo sobre sustentabilidade, mas acabo sempre por escolher o mais prático".

Outro fator é a aversão ao risco, que se manifesta na desconfiança em relação a iniciativas de sustentabilidade, como a possibilidade de greenwashing (práticas de sustentabilidade enganosas). Os participantes demonstram relutância em optar por iniciativas sustentáveis devido ao receio de serem iludidos por promessas de sustentabilidade pouco confiáveis, preferindo alternativas mais convencionais​.

2. Barreiras Interpessoais

As barreiras interpessoais resultam das pressões sociais e dinâmicas familiares, que desencorajam escolhas éticas no turismo. O estudo destaca o estigma “verde”, uma percepção negativa de que o comportamento ético pode parecer moralista ou superior aos padrões convencionais, levando alguns jovens a evitarem mencionar as suas escolhas éticas por receio de julgamentos sociais. Um participante comentou: “Falar sobre as minhas escolhas éticas pode soar como se estivesse a julgar os outros, o que me faz hesitar.”

As dinâmicas familiares reforçam esta dificuldade, já que os pais tendem a valorizar o custo e a conveniência em detrimento de práticas éticas. Este desajuste entre as prioridades dos jovens e os valores familiares impede a adoção de práticas sustentáveis em viagens em grupo, limitando o envolvimento dos jovens no turismo ético​.

3. Barreiras Estruturais

Por fim, as barreiras estruturais incluem limitações financeiras e acessibilidade restrita às opções éticas. A disponibilidade limitada de opções de viagem sustentáveis, como alojamentos ecológicos e transportes públicos em áreas remotas, dificulta a implementação de escolhas éticas. O custo elevado dos alojamentos sustentáveis e das atividades de turismo ético representa uma restrição financeira significativa para os jovens, especialmente estudantes ou profissionais em início de carreira. Esta barreira estrutural é muitas vezes racionalizada como uma “necessidade”, com participantes a justificar as escolhas menos éticas pelo custo mais acessível​.

Principais Conclusões

  • A complexidade da dissonância cognitiva: A dificuldade em alinhar valores éticos com decisões práticas revela que a dissonância cognitiva cria uma barreira significativa à implementação de escolhas éticas no turismo.
  • Pressões sociais como obstáculos: O estigma associado às escolhas éticas e a pressão familiar influenciam negativamente as práticas de consumo ético da Geração Z, especialmente em viagens em grupo.
  • Inacessibilidade estrutural: A falta de opções sustentáveis acessíveis e a elevada diferença de preços limitam a adoção de práticas éticas no turismo, reforçando a inércia de consumo.
  • Sequencialidade das barreiras: As barreiras operam de forma hierárquica, com as restrições intrapessoais a desencadear barreiras interpessoais e estruturais, criando um ciclo que dificulta a adoção de práticas éticas.


Fonte: Seyfi, S., Hall, C. M., Saarinen, J., Zaman, M., & Vo-Thanh, T. (2024). Identifying Constraints on Gen Z’s Path toward Ethical Tourism Consumption and Practices. Journal of Sustainable Tourism. DOI: https://doi.org/10.1080/09669582.2024.2418967

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