Repensar a governança turística: Uma nova era para comunidades locais e sustentabilidade

No artigo “Transformar a Governança do Turismo: Uma Evolução Essencial”, publicado na mais recente edição da revista Dos Algarves: Tourism, Hospitality & Management Journal, o investigador Alfonso Vargas-Sánchez propõe uma nova abordagem para a governança turística no período pós-pandemia. O estudo enfatiza a necessidade de integrar as comunidades locais nos processos de tomada de decisão, de forma a assegurar modelos mais sustentáveis e inclusivos, combatendo fenómenos como a turismofobia.

Foto de Rachel Vine (link)

A pandemia de COVID-19 revelou tanto a dependência económica do setor turístico como os seus impactos sociais e ambientais negativos. O artigo de Vargas-Sánchez, professor catedrático da Universidade de Huelva e reconhecido especialista em gestão turística, argumenta que o regresso ao modelo pré-pandemia seria um erro estratégico. Defende que "a sustentabilidade social só será alcançada se houver uma aliança efetiva com os residentes permanentes, que há muito têm sido ignorados nos processos de governança turística"​.

Baseando-se em estudos de caso e numa extensa revisão da literatura, Vargas-Sánchez define a governança turística como um processo que envolve múltiplos intervenientes, incluindo governos, empresas e, crucialmente, as comunidades locais. O autor sublinha que, apesar das iniciativas de cogovernança entre o setor público e privado, a exclusão da população residente tem fomentado tensões sociais, visíveis no aumento dos protestos contra o turismo de massas, descritos como “turismofobia”​.

O Papel Central das Comunidades Locais

Para Vargas-Sánchez, as comunidades locais são o "elo perdido" na maioria dos modelos de governança turística. Ele argumenta que os residentes não podem ser apenas observadores passivos, mas sim participantes ativos na definição de políticas e estratégias. Citando estudos recentes, o autor afirma que “uma governança eficaz depende da capacidade de envolver os cidadãos na tomada de decisões que afetam diretamente as suas vidas”​.

O autor destaca o modelo das Public-Private-People Partnerships (4Ps), que inclui os residentes como parceiros chave, ao contrário do tradicional modelo de parceria público-privada (3Ps). Esta abordagem é vista como essencial para superar as limitações do modelo anterior, garantindo que as necessidades e preocupações das comunidades sejam integradas nas estratégias de desenvolvimento turístico​.

Sustentabilidade Social e Novas Abordagens

O estudo enfatiza a importância de reavaliar métricas de sucesso no turismo. Para Vargas-Sánchez, indicadores como o número de visitantes e receitas económicas não são suficientes. Ele defende que a qualidade de vida das comunidades anfitriãs deve ser um fator central na avaliação da eficácia das políticas turísticas.

“A inclusão das comunidades locais permite mitigar os efeitos adversos do turismo, como a gentrificação e a pressão sobre os recursos naturais”, explica o autor, destacando exemplos internacionais, como o Parque Nacional do Mar de Wadden, na Dinamarca, onde estruturas colaborativas e participativas têm gerado resultados positivos quer para os residentes quer para visitantes.

Combater a Turismofobia e promover a Turismofilia

Um dos aspetos mais inovadores do artigo é a introdução dos conceitos de turismofobia e turismofilia. O primeiro refere-se à rejeição do turismo pelas comunidades devido a modelos insustentáveis, enquanto o segundo descreve um cenário de convivência harmoniosa entre residentes e visitantes. Para alcançar a turismofilia, Vargas-Sánchez propõe a criação de mecanismos permanentes de participação cívica, como conselhos comunitários e inquéritos regulares à população residente​.

O artigo de Alfonso Vargas-Sánchez representa uma chamada à ação para gestores, políticos e investigadores no campo do turismo. Ele argumenta que "sem uma transformação profunda da governança turística, a sustentabilidade social continuará a ser um objetivo distante". Integrar as comunidades locais nos processos de decisão não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma estratégia inteligente para garantir o sucesso a longo prazo dos destinos turísticos. O futuro do turismo depende de um equilíbrio cuidadoso entre o crescimento económico, a proteção ambiental e o bem-estar das comunidades que tornam os destinos únicos e atrativos.


Fonte: Vargas-Sánchez, A. (2024). Transformar a governança do turismo: Uma evolução essencial. Dos Algarves: Tourism, Hospitality & Management Journal, 45, 40-54. (link)

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