As experiências sensoriais emergem como uma ferramenta poderosa para transformar perceções e criar memórias duradouras. A dissertação de Mestrado de André Filipe Barata Pereira, apresentada recentemente na Universidade de Lisboa, investiga como o turismo de olhos vendados pode intensificar o sentido de lugar e proporcionar experiências transformadoras em Lisboa. Com foco nas iniciativas “Sensory Lisbon” e “Dining in the Dark”, este estudo oferece insights inovadores sobre o papel do turismo multissensorial no reforço das conexões emocionais com os destinos.
Tradicionalmente centrado na visão, o turismo tem vindo a reconhecer o potencial dos estímulos multissensoriais na criação de experiências mais profundas e significativas. Segundo Pereira, “a visão é frequentemente privilegiada no turismo, mas as experiências de olhos vendados desafiam esta convenção ao intensificar outros sentidos como o olfato, audição, tato e paladar” (p. 4). Este enfoque promove uma ligação mais emocional e autêntica com os destinos, oferecendo uma perspetiva alternativa e inovadora sobre o turismo experiencial.
Lisboa é apresentada como um caso de estudo ideal para explorar o turismo multissensorial, dada a sua riqueza cultural e histórica. As experiências “Sensory Lisbon” e “Dining in the Dark” destacam-se por desafiar os participantes a explorarem a cidade sem recorrerem à visão. A primeira, organizada pela Lisbon Walker, convida os visitantes a percorrerem o bairro de Alfama de olhos vendados, promovendo uma conexão mais íntima com os sons, cheiros e texturas da cidade. A segunda, conduzida pela Fever, oferece uma experiência gastronómica onde a escuridão total intensifica o sabor e a textura dos alimentos.
Estas iniciativas não só redefinem a forma como os turistas vivenciam a cidade, mas também oferecem insights valiosos sobre a importância do marketing sensorial na promoção de destinos urbanos.
O poder transformador do turismo de olhos vendados
O estudo de Pereira sublinha que a remoção deliberada da visão permite uma amplificação dos outros sentidos, criando experiências únicas e memoráveis. “Estas atividades não apenas desafiam a perceção dos visitantes, mas também fomentam um sentido de pertença e conexão emocional com os lugares” (p. 12).
A análise das entrevistas realizadas com os participantes das experiências revela que muitos relataram uma perceção mais intensa dos sons de Lisboa, como o eco dos passos nas ruas de calçada ou o som distante do fado. Outros destacaram o impacto do olfato, com a identificação de aromas como o pão acabado de cozer ou o perfume das flores em Alfama.Para além de enriquecerem as experiências dos visitantes, estas iniciativas têm implicações significativas para o marketing e desenvolvimento de destinos. Ao destacar elementos sensoriais únicos, Lisboa posiciona-se como um destino inovador e diferenciado, capaz de atrair um público mais diversificado e exigente. Além disso, o turismo multissensorial contribui para a preservação da identidade cultural e promove o envolvimento das comunidades locais, criando um impacto económico e social positivo.
Principais conclusões
- Desafiar a dominância visual: O turismo de olhos vendados demonstra que os sentidos não visuais são igualmente cruciais para a criação de experiências significativas.
- Conexão emocional e sentido de lugar: A intensificação de outros sentidos promove uma ligação mais profunda com os destinos, transformando perceções e comportamentos.
- Impacto cultural e económico: Estas experiências não só valorizam a identidade cultural, como também oferecem novas oportunidades para a promoção e desenvolvimento de destinos.
- Lisboa como pioneira: As iniciativas “Sensory Lisbon” e “Dining in the Dark” posicionam Lisboa como uma referência no turismo multissensorial.
Referência: Pereira, A. F. B. (2024). Beyond Sightseeing: Exploring Multisensory Tourism in Blindfolded Experiences in Lisbon. Universidade de Lisboa, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território. (link)


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