O turismo arqueológico tem vindo a ganhar protagonismo como ferramenta para a valorização territorial e cultural, mas os desafios de envolvimento das comunidades e de desenvolvimento sustentável continuam a ser centrais. No artigo “Explorando a Aplicação de um Modelo de Cocriação no Turismo Arqueológico: Dois Estudos de Caso Desenvolvidos no Âmbito do Projeto TURARQ Sob a Égide do Projeto Link Me Up - 1000 Ideias”, publicado na Revista Portuguesa de Estudos Regionais (n.º 70, 2025), os investigadores Sara Garcês, Hugo Gomes, Marco Martins, Anícia Trindade, Cristina Costa, António Manso e Célio Gonçalo Marques, do Instituto Politécnico de Tomar e da Universidade de Coimbra, apresentam dois projetos inovadores que aliam tecnologia, educação e património.
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| Estação Arqueológica Romana de Vale de Junco (Balneário) (PR4) - Rotas de Mação |
A investigação destaca a importância da realidade aumentada e do empreendedorismo na valorização dos sítios arqueológicos, explorando um modelo de cocriação que permite a participação ativa de estudantes e especialistas.
O estudo assenta na premissa de que a experiência do turista arqueológico é essencialmente cognitiva, baseada na interpretação do património e na compreensão do seu significado histórico e cultural. No entanto, o turismo arqueológico enfrenta desafios como a dificuldade de comunicação do conhecimento científico e a fraca ligação entre os sítios e as comunidades locais. É neste contexto que surge o projeto TURARQ, integrado no Link Me Up - 1000 Ideias, financiado pelo programa COMPETE 2020 e pelo Fundo Social Europeu, com o objetivo de testar metodologias inovadoras de ensino e empreendedorismo no setor.
A investigação explora a aplicação de um modelo de cocriação, baseado no Project Based Learning (PBL), que permite aos estudantes desenvolver projetos concretos em colaboração com especialistas, promovendo uma aprendizagem ativa e experiências imersivas no património arqueológico. O artigo destaca que “a cocriação no turismo arqueológico pode ser um meio eficaz de construir confiança e fomentar a compreensão partilhada entre estudantes, investigadores e comunidades” (p. 127).
Dois estudos de caso: realidade aumentada e sustentabilidade
O estudo analisa dois projetos-piloto desenvolvidos no âmbito do TURARQ:
Show Me the Past – Desenvolvimento de uma aplicação de Realidade Aumentada (RA) aplicada ao Vale do Junco, um sítio arqueológico romano em Mação. A aplicação permite visualizar artefactos em contexto real, melhorando a experiência dos visitantes e possibilitando a reconstrução virtual de estruturas desaparecidas, como termas romanas.
Mostrar a Pré-história – Criação de um modelo de negócio sustentável para um parque temático (ArchaeoPark), baseado na reconstrução de modos de vida pré-históricos. O projeto pretende envolver a comunidade local, promovendo a educação patrimonial e o turismo inclusivo.
No primeiro caso, os investigadores apontam que a tecnologia digital tem vindo a transformar o turismo arqueológico, oferecendo novas formas de interação com o património. Estudos anteriores já haviam demonstrado que “a realidade aumentada melhora a experiência do visitante ao tornar a informação mais acessível e interativa” (Han et al., 2019).
No segundo caso, o foco está na sustentabilidade e na valorização da identidade local. O ArchaeoPark de Mação surge como uma resposta à necessidade de dinamizar territórios de baixa densidade, criando um modelo turístico que combina educação, recreação e desenvolvimento económico. Como referem os autores, “o turismo arqueológico pode contribuir para a coesão social e para a revitalização económica, desde que articulado com estratégias de longo prazo e o envolvimento da comunidade” (p. 134).
Resultados e impacto do projeto
Os projetos analisados no estudo tiveram impactos positivos tanto na experiência dos visitantes como na capacitação dos participantes. Entre os principais resultados destacam-se:
- Elevados níveis de satisfação entre os participantes – Os estudantes envolvidos na cocriação demonstraram uma aprendizagem significativa sobre património e empreendedorismo.
- Desenvolvimento de competências para o turismo do futuro – A investigação aponta que metodologias como a PBL promovem habilidades essenciais para o setor turístico, incluindo criatividade, inovação e gestão cultural.
- Criação de novas narrativas para o turismo arqueológico – A utilização da RA e a reconstituição da Pré-história permitiram explorar novas abordagens para a interpretação do património, tornando-o mais acessível e atrativo.
- Envolvimento da comunidade local – No caso do ArchaeoPark, a estratégia baseou-se na colaboração com residentes e associações locais, reforçando o impacto socioeconómico do projeto.
Apesar dos resultados promissores, os autores alertam para a necessidade de estudos futuros para avaliar o impacto a longo prazo destas iniciativas, nomeadamente no surgimento de novos empreendedores no setor.
Conclusão: Um novo caminho para o turismo arqueológico?
O estudo publicado na Revista Portuguesa de Estudos Regionais reforça a ideia de que a cocriação pode desempenhar um papel transformador na valorização do turismo arqueológico. O envolvimento ativo de estudantes, especialistas e comunidades permite criar experiências inovadoras e sustentáveis, respondendo aos desafios da digitalização e da preservação patrimonial.
Com a crescente utilização de tecnologias como a realidade aumentada e o desenvolvimento de modelos turísticos mais participativos, o turismo arqueológico pode consolidar-se como um setor estratégico para a valorização do património e o desenvolvimento local. Como concluem os investigadores, “a sustentabilidade do turismo arqueológico passa pela criação de novas formas de interpretação e pela integração do conhecimento científico com as necessidades dos visitantes e das comunidades” (p. 140).
Referência: Garcês, S., Gomes, H., Martins, M., Trindade, A., Costa, C., Manso, A., & Marques, C. G. (2025). Explorando a Aplicação de um Modelo de Cocriação no Turismo Arqueológico: Dois Estudos de Caso Desenvolvidos no Âmbito do Projeto TURARQ Sob a Égide do Projeto Link Me Up - 1000 Ideias. Revista Portuguesa de Estudos Regionais, 70, 125-141. DOI: 10.59072/rper.vi70.638.

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