A pandemia de COVID-19 alterou drasticamente a forma como as pessoas encaram o turismo, afetando as suas emoções, motivações e preferências na escolha de destinos. O estudo “Exploring Positive and Negative Emotions Through Motivational Factors: Before, During, and After the Pandemic Crisis with a Sustainability Perspective”, publicado na revista Sustainability, por Arlindo Madeira (Universidade Europeia e IPLUSO), Rosa Rodrigues (Instituto Superior de Gestão), Sofia Lopes (Universidade Europeia) e Teresa Palrão (Universidade Lusófona), analisa como os fatores motivacionais (push e pull) que impulsionam os turistas foram influenciados pela crise sanitária.
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| Foto de Uiliam Nörnberg (Pexels) |
A investigação examina três períodos distintos – antes, durante e após a pandemia – revelando que, apesar das flutuações emocionais, as motivações para viajar mantiveram-se relativamente estáveis, enquanto a sustentabilidade emergiu como um critério cada vez mais valorizado na escolha de destinos.
As emoções e o comportamento dos turistas
O turismo é fortemente influenciado pelas emoções, que determinam não apenas a escolha do destino, mas também a perceção da experiência de viagem. O estudo demonstra que, antes da pandemia, predominavam emoções positivas, como entusiasmo e felicidade, associadas ao desejo de lazer, descoberta cultural e aventura. No entanto, com a chegada da COVID-19, sentimentos de medo, ansiedade e incerteza tornaram-se dominantes, levando a uma reformulação das motivações turísticas.
Durante a pandemia, a principal preocupação dos viajantes passou a ser a segurança, o que favoreceu o turismo de baixa densidade e o contacto com a natureza. Como referem os autores, “a incerteza associada à pandemia levou os turistas a reavaliar os riscos das viagens e a dar prioridade a destinos que oferecessem um ambiente seguro e controlado” (p. 10). Esta mudança traduziu-se num aumento significativo do turismo rural e ecológico, afastando os viajantes dos grandes centros urbanos e das tradicionais zonas de turismo de massas.
No período pós-pandemia, verifica-se um regresso às emoções positivas, com os turistas a retomarem a vontade de explorar novos destinos e de vivenciar experiências culturais. No entanto, a pandemia deixou marcas duradouras no comportamento dos viajantes, que agora valorizam mais a sustentabilidade, a segurança e a autenticidade na escolha dos seus destinos. “O período pós-pandemia reflete não apenas a recuperação do setor turístico, mas também uma transformação nas prioridades e nas expectativas dos viajantes” (p. 14).
Motivações para viajar: Antes, durante e depois da pandemia
O estudo baseou-se em três períodos distintos:
- Antes da pandemia (2019) – Foram inquiridos 508 turistas, cujas motivações principais estavam relacionadas com lazer, novas experiências e enriquecimento cultural.
- Durante a pandemia (2020) – Com 507 participantes, esta fase revelou uma mudança significativa nas motivações, com a segurança sanitária a tornar-se o principal fator na escolha dos destinos.
- Pós-pandemia (2023) – Com 488 inquiridos, esta fase demonstrou uma recuperação das motivações pré-pandemia, mas com um crescente interesse por práticas sustentáveis e um maior cuidado com o impacto ambiental das viagens.
Os fatores push e pull, que explicam as razões internas e externas que levam os turistas a viajar, sofreram alterações subtis, mas mantiveram-se relativamente consistentes ao longo do tempo. Os fatores push, como o desejo de fugir à rotina, relaxar e conhecer novas culturas, permaneceram fortes, mas ganharam uma nova dimensão associada ao bem-estar emocional e à saúde mental. Já os fatores pull, como a infraestrutura turística e os atrativos culturais dos destinos, passaram a incluir a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental como critérios relevantes.
Os autores destacam que “a pandemia não mudou fundamentalmente as motivações dos turistas, mas aumentou a consciência sobre a importância da segurança e da sustentabilidade na escolha dos destinos” (p. 16).
Sustentabilidade: Um novo pilar na escolha dos destinos
Um dos aspetos mais marcantes do estudo é o crescimento da valorização da sustentabilidade por parte dos turistas. Se antes da pandemia a preocupação ambiental já era uma tendência emergente, o pós-pandemia consolidou-a como um fator determinante na tomada de decisão. Os viajantes passaram a procurar alojamentos ecológicos, reduzir a pegada de carbono e evitar destinos sobrelotados.
A pandemia também reforçou a importância das viagens responsáveis, com os turistas a demonstrarem um maior interesse por experiências autênticas que beneficiem as comunidades locais. Como salientam os investigadores, “a crise pandémica foi um ponto de viragem que levou a uma reavaliação da forma como viajamos, impulsionando práticas mais éticas e sustentáveis” (p. 18).
O turismo de natureza e o ecoturismo registaram um crescimento expressivo, com muitos turistas a optarem por locais menos explorados e por atividades que promovem um contacto mais profundo com o meio ambiente. Além disso, os viajantes passaram a preferir empresas que demonstram compromisso com a sustentabilidade, como hotéis com certificação ecológica e operadores turísticos que adotam práticas responsáveis.
O Futuro do Turismo: O que mudou e o que permanece?
O estudo indica que a pandemia acelerou algumas mudanças que já estavam em curso no setor turístico. As tendências para experiências mais personalizadas, menos massificadas e mais alinhadas com princípios de sustentabilidade foram reforçadas e deverão continuar a influenciar a indústria nos próximos anos.
Por outro lado, a recuperação emocional dos turistas demonstra que o desejo de viajar continua intacto. A necessidade de explorar novos lugares, conhecer culturas diferentes e viver experiências enriquecedoras mantém-se, mas agora com uma nova consciência sobre a forma como estas viagens afetam o planeta e as comunidades locais.
Como afirmam os autores, “o turismo pós-pandemia representa um equilíbrio entre a vontade de recuperar a liberdade de viajar e a necessidade de adotar práticas mais sustentáveis e responsáveis” (p. 20).
Conclusões
- As emoções desempenharam um papel central na evolução do turismo ao longo da pandemia, com o medo e a ansiedade a dominarem durante a crise e o entusiasmo e a alegria a regressarem no pós-pandemia.
- Os fatores motivacionais (push e pull) permaneceram relativamente estáveis, mas ganharam novas dimensões associadas à segurança e ao bem-estar.
- A pandemia impulsionou o turismo sustentável, levando os viajantes a valorizar destinos menos massificados, práticas ecológicas e experiências autênticas.
- O turismo de natureza e o ecoturismo registaram um crescimento expressivo, refletindo uma nova perceção sobre o impacto das viagens no meio ambiente.
- O futuro do turismo será marcado por um equilíbrio entre a recuperação da liberdade de viajar e a adoção de práticas mais responsáveis e sustentáveis.
Referência: Madeira, A., Rodrigues, R., Lopes, S., & Palrão, T. (2025). Exploring Positive and Negative Emotions Through Motivational Factors: Before, During, and After the Pandemic Crisis with a Sustainability Perspective. Sustainability, 17(2246). DOI: 10.3390/su17052246.

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