De refúgio a negócio: Migrantes empreendedores e turismo sustentável no Algarve rural

Numa região marcada por assimetrias territoriais e pressão turística sobre o litoral, o Algarve interior acolhe discretamente uma nova vaga de migrantes europeus que escolhem o território não apenas para viver, mas para criar microempresas ligadas ao turismo. Um estudo recente revela o perfil, as práticas e os desafios destes “empreendedores do estilo de vida” e aponta para a ausência de estratégias públicas que reconheçam o seu papel na revitalização rural e na transição para modelos mais sustentáveis.

Foto de Bert Christiaens

Entre o desejo de viver num “pequeno paraíso por descobrir” e a vontade de criar um projeto de vida sustentável, cresce silenciosamente um fenómeno com implicações relevantes para o futuro do turismo e do desenvolvimento local em Portugal. O artigo “‘A Little Unspoilt Paradise’: Profile and Practices of Tourism-Related Lifestyle Migrant Entrepreneurs in Southern Portugal”, da autoria de Filipa Perdigão Ribeiro, Kate Torkington e Sandra Rebelo, investigadoras do Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo (CiTUR Algarve), traça um retrato inédito deste grupo de novos residentes europeus que escolheram o interior do Algarve para fundar pequenos negócios turísticos enraizados num ideal de vida alternativa, autorrealização e contacto com a natureza.

O estudo, baseado num inquérito por questionário a 60 empreendedores e em entrevistas qualitativas a técnicos municipais de sete concelhos algarvios, revela um conjunto de tendências emergentes com elevado potencial para informar políticas públicas nas áreas do turismo, fixação de população, coesão territorial e empreendedorismo. Ao contrário da narrativa dominante do turismo de massas algarvio, centrada no litoral, o artigo destaca a importância de pensar o Algarve como um espaço plural, onde convivem temporalidades, motivações e estratégias de desenvolvimento muito diversas.

A maioria destes empreendedores é oriunda do norte da Europa (Reino Unido, Alemanha, Países Baixos), tem formação superior e encontra-se numa fase de mudança de vida — seja por reforma antecipada, esgotamento profissional ou desejo de reconexão com valores ecológicos e modos de vida simples. O estudo revela que mais de 60% já pretendiam criar um negócio antes de se mudarem para Portugal, sendo que as atividades mais frequentes são o alojamento turístico, o turismo de natureza, a restauração local e o artesanato.

Este “empreendedorismo de estilo de vida” não se define pela ambição de crescimento económico, mas antes por uma lógica de autoconsumo simbólico: o negócio é, acima de tudo, o meio para viver num lugar desejado, com tempo e qualidade de vida. Como observam as autoras, “os empreendedores tendem a ver o negócio como uma extensão do seu modo de vida e não como um instrumento de acumulação” (p. 10).

A investigação revela também uma clara preocupação ambiental entre os entrevistados, que procuram aplicar princípios de sustentabilidade na sua atividade: desde a construção ecológica à utilização de painéis solares, passando pela redução de resíduos ou o fornecimento de produtos locais. Contudo, este compromisso ético e ambiental é raramente reconhecido ou apoiado pelas estruturas locais.

Paradoxalmente, apesar do seu contributo para a revitalização de territórios fragilizados pela desertificação demográfica, a relação destes empreendedores com o tecido institucional é frágil. Muitos relatam dificuldades de adaptação às exigências legais, barreiras linguísticas e uma total ausência de apoio à sua integração. Por seu lado, os técnicos municipais entrevistados demonstram desconhecimento sobre o perfil e o número destes empreendedores nos seus concelhos, o que revela falhas na monitorização e no planeamento local.

O estudo aponta assim para uma oportunidade perdida: estes empreendedores, que atuam maioritariamente em zonas de baixa densidade e com práticas alinhadas com os ODS e os princípios do turismo sustentável, não estão a ser enquadrados em políticas de valorização territorial. A ausência de medidas de acolhimento, capacitação ou incentivo contrasta com o discurso político que apela à dinamização do interior.

O artigo termina com um apelo à construção de estratégias locais que reconheçam o potencial transformador deste grupo: não como turistas ocasionais ou investidores externos, mas como agentes territoriais enraizados, com capacidade de gerar valor económico, social e ambiental.

Principais Conclusões

  • Os migrantes empreendedores no Algarve rural procuram criar negócios alinhados com estilos de vida sustentáveis, longe da lógica do turismo massificado.
  • Este grupo é composto sobretudo por cidadãos europeus, escolarizados, que associam turismo, natureza e realização pessoal.
  • O modelo de negócio é familiar, de pequena escala, orientado para mercados estrangeiros e, em muitos casos, inspirado por princípios ecológicos.
  • Apesar do seu impacto positivo, enfrentam dificuldades de integração institucional, falta de informação e ausência de redes de apoio.
  • As autarquias demonstram um conhecimento limitado sobre este fenómeno e não possuem políticas específicas para o acolher ou potenciar.
  • O estudo recomenda uma maior articulação entre os agentes públicos e estes novos residentes, no sentido de integrar os seus projetos nas estratégias de desenvolvimento local.


Referência: Ribeiro, F. P., Torkington, K., & Rebelo, S. (2025). “A Little Unspoilt Paradise”: Profile and Practices of Tourism-Related Lifestyle Migrant Entrepreneurs in Southern Portugal. Journal of Tourism, Sustainability and Well-being, 13(1), 4–20. https://doi.org/10.34623/9e3z-hs26

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