Verde é a nova cor do turismo urbano? O potencial dos espaços verdes na requalificação turística do Porto
Investigação pioneira propõe integrar parques e jardins na estratégia de city breaks sustentáveis, reposicionando a cidade de Porto como destino regenerativo e inclusivo.
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| Foto de Lora Georgieva na Unsplash |
Quando as cidades se procuram reinventar para enfrentar desafios ambientais, sociais e turísticos, um estudo recente analisa de forma minuciosa o papel dos espaços verdes urbanos na cidade do Porto e o seu potencial como recurso turístico estratégico. Com base em observação direta e inventariação de infraestruturas em 21 parques e jardins da cidade, os autores propõem uma leitura renovada da paisagem urbana, onde a natureza não é apenas elemento decorativo, mas motor de regeneração, saúde pública e diferenciação turística.
A investigação parte de uma constatação: embora o Porto apresente um índice elevado de espaço verde per capita (54,8 m²/habitante), superior ao de cidades como Amesterdão ou Turim, muitos desses espaços permanecem invisibilizados nas ofertas turísticas formais. “O objetivo passa por integrar estes recursos numa rota turística estruturada, descentralizando os fluxos e valorizando zonas menos visitadas da cidade”, escrevem os autores.
A proposta não é meramente estética ou paisagística. Com base em indicadores rigorosos – acessibilidade, equipamentos, segurança, biodiversidade, potencial educativo – o estudo revela tanto as virtudes como as carências dos espaços analisados. Parques como o da Cidade, Virtudes, Covelo ou o Parque Oriental surgem com potencial elevado, mas carecem de intervenções específicas: rampas de acessibilidade, iluminação noturna, bebedouros, circuitos de manutenção, placas informativas multilingues e conectividade digital.
Um dos pontos mais inovadores da proposta prende-se com a integração de boas práticas internacionais. Cidades como Paris, Berlim, Singapura ou Cidade do México são referenciadas como modelos de incorporação de infraestrutura verde nos tecidos urbanos – desde coberturas vegetais a corredores ecológicos, hortas urbanas e arborização extensiva. Porto pode, e deve, seguir esse caminho.
Outra dimensão sublinhada é a da inclusividade. A menção especial recebida por Porto no Prémio “Cidade Acessível 2022” da Comissão Europeia sublinha os avanços na mobilidade urbana, mas os autores alertam: “Essa acessibilidade deve estender-se aos jardins e parques, para que estes sejam usufruídos por todos, independentemente da idade ou condição física.”
O estudo recomenda a criação de uma Rota Verde Turística do Porto, articulada com a marca “City Break” que tem vindo a ser promovida pelo município. Esta rota permitiria não apenas aliviar a pressão turística no centro histórico, como alavancar o comércio local noutras zonas da cidade, criar emprego, reforçar a identidade urbana e diversificar a experiência turística.
Os autores são particularmente contundentes ao destacar o impacto da pandemia: “A COVID-19 revelou a necessidade de espaços urbanos abertos, saudáveis e multifuncionais, não apenas como refúgio, mas como infraestrutura essencial à qualidade de vida.”
Principais conclusões:
- O Porto possui uma quantidade significativa de espaço verde urbano (54,8 m²/habitante), acima da média europeia, mas esse património continua subaproveitado do ponto de vista turístico.
- A maioria dos parques apresenta boas condições de sombra, diversidade botânica e acessibilidade básica, mas falha em elementos como sinalética multilingue, serviços de apoio, atividades educativas e acessibilidade universal plena.
- A criação de uma rota turística verde pode contribuir para a diversificação da oferta turística da cidade, valorizando zonas periféricas e mitigando a concentração de fluxos no centro histórico.
- A comparação com cidades como Paris, Berlim ou Singapura demonstra que o Porto tem margem para implementar soluções sustentáveis de última geração – como jardins verticais, coberturas verdes, circuitos ecológicos ou zonas de biodiversidade urbana.
- Investimentos recentes (como os 640 mil euros em equipamentos de fitness ao ar livre) revelam uma aposta pública na regeneração verde urbana, mas carecem de uma estratégia integrada com o setor do turismo.
- A investigação aponta para a urgência de reforçar a limpeza, segurança, iluminação e qualidade das infraestruturas nos jardins menos conhecidos, como o Parque Oriental ou a Quinta de Bonjóia.
- O estudo propõe ainda a aplicação do sistema ColorADD para tornar os parques mais acessíveis a pessoas com daltonismo, uma inovação já presente no metro do Porto.
Referência: Mota, A. I., Martins, H. M. O., Pinheiro, A. J., & Gonçalves, E. C. C. (2025). Green Spaces in Porto: Urban Renewal and Tourism Potential (Portugal). PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 23(2), 589–604. https://doi.org/10.25145/j.pasos.2025.23.038

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