Governança, Turismo e Inovação: O Algarve como região inteligente em construção

A partir do caso do Algarve, região periférica e dependente do turismo, um estudo recente analisa os desafios e potencialidades da transição para uma “região inteligente”. Mais do que digitalização, trata-se de governança adaptativa, inovação inclusiva e um novo modelo territorial com o cidadão no centro.

Foto de Micheile Henderson

A expressão “smart region” tem vindo a ganhar terreno nas agendas europeias de desenvolvimento territorial, mas o seu significado vai muito além de digitalização ou conectividade. Implica uma reconfiguração profunda da forma como o território se organiza, produz conhecimento, inova e integra os seus cidadãos nos processos de decisão. E se este conceito já foi amplamente explorado em contexto urbano, permanece subanalisado nas regiões periféricas e dependentes de setores monoeconómicos – como é o caso do Algarve, cuja economia assenta fortemente no turismo.

É precisamente neste contexto que se insere o artigo The Governance of Smart Regions in Peripheral Areas: Exploring the Case of a Tourism-Dependent Region, recentemente publicado na Urban Science. Assinado por três investigadores de instituições portuguesas e internacionais – Hugo Pinto (Universidade do Algarve e Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra), Bernardo Valente (ISCSP-ULisboa e Universitat Autònoma de Barcelona) e Jennifer Elston (Universidade do Algarve) – o estudo debruça-se sobre os processos de governança, colaboração entre atores e alocação de recursos na construção de uma “região inteligente” no Algarve.

A investigação baseou-se em análise documental, inquéritos e entrevistas semiestruturadas com stakeholders estratégicos do ecossistema algarvio, incluindo instituições públicas, universidade, empresas e representantes da sociedade civil. O objetivo: compreender as dinâmicas institucionais, identificar os bloqueios à inovação e sugerir caminhos de transição para uma governança mais eficaz, inclusiva e resiliente.

Os autores destacam que o Algarve, apesar de possuir bons indicadores no que respeita ao ensino superior e produção científica, apresenta um fraco desempenho em inovação empresarial, emprego em TIC e colaboração entre PME e centros de investigação. “Há um desfasamento entre a produção de conhecimento e a sua tradução em produtos e serviços inovadores”, referem, apontando para um ecossistema de inovação ainda fragmentado e pouco robusto.

No campo da governação, o estudo evidencia lacunas significativas: políticas municipais desalinhadas, fraca interoperabilidade entre estruturas públicas, ausência de incentivos à inovação nas PME e baixos níveis de literacia digital entre a população rural. A ausência de mecanismos estruturados de participação cidadã e a limitada confiança nas instituições agravam a dificuldade de implementação de modelos de smart governance.

No entanto, o artigo também identifica avanços e oportunidades. Iniciativas como a Algarve Tech Hub e o projeto Região Inteligente Algarve (RIA), coordenado pelo Conselho de Inovação Regional, revelam uma crescente consciência sobre a necessidade de articulação entre setores. A presença de setores emergentes como o hospitality tech, ocean tech e agrotech, bem como o aumento de nómadas digitais, são sinais de que a região tem potencial para se reposicionar como hub de inovação, para além do turismo.

Inspirando-se em casos comparáveis, como as Baleares, Creta ou a Córsega, os autores defendem que a transição inteligente de regiões periféricas exige modelos de governação flexíveis, enraizados no território e atentos à equidade social e territorial. Barcelona ou Amesterdão podem servir de faróis, mas não como moldes a replicar.

Principais conclusões

  • O Algarve enfrenta fragilidades estruturais em termos de governação, articulação de políticas e capacidade de inovação das PME, reflexo da sua forte dependência do turismo.
  • Apesar de bons indicadores em ensino superior e produção científica, existe uma fraca transferência de conhecimento para a economia e escassa cultura de colaboração entre academia, empresas e poder local.
  • O modelo de quadrupla hélice (governo, academia, empresas, sociedade civil) é ainda incipiente na prática, comprometido por barreiras institucionais, fragmentação territorial e desconfiança pública.
  • Iniciativas como a Algarve Tech Hub e o RIA apontam caminhos promissores, mas exigem mais recursos, continuidade estratégica e maior inclusão cidadã.
  • O estudo propõe o reforço das parcerias público-privadas, o investimento em literacia digital, a construção de plataformas participativas e a coordenação intermunicipal como pilares para uma transição eficaz.
  • O Algarve poderá afirmar-se como uma região inteligente e resiliente se conseguir ultrapassar os bloqueios estruturais, diversificar a base económica e adotar políticas de inovação mais inclusivas e contextualmente ajustadas.


Referência bibliográfica: Pinto, H., Valente, B., & Elston, J. (2025). The Governance of Smart Regions in Peripheral Areas: Exploring the Case of a Tourism-Dependent Region. Urban Science, 9(5), 143. https://doi.org/10.3390/urbansci9050143


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