Cicloturismo como motor de regeneração rural: estudo propõe nova metodologia para planear territórios sustentáveis na Europa

Um estudo inovador realizado na região italiana do Véneto revela como o cicloturismo pode ser uma ferramenta estratégica de revitalização rural e conservação da paisagem. Através de metodologias GIS-MCDA, os investigadores identificaram zonas prioritárias para a criação de redes cicláveis sustentáveis e conectadas com o território, antecipando um novo paradigma para o ordenamento territorial.

Região de Veneto (Autor: Luigi Dorigo)

A contínua desertificação das áreas rurais, impulsionada pelas migrações para os centros urbanos e pela retração da agricultura tradicional, é uma tendência que ameaça não apenas os equilíbrios ecológicos e paisagísticos da Europa, mas também a sua coesão socioeconómica. Foi para responder a esta questão que Monica C. M. Parlato e Andrea Pezzuolo, da Universidade de Pádua, desenvolveram uma metodologia integrada de apoio à decisão territorial, combinando sistemas de informação geográfica (GIS) e análise multicritério (MCDA). Publicado na revista Land Degradation & Development (2025), o estudo propõe uma solução replicável, baseada em dados e em envolvimento de partes interessadas, para planear redes de cicloturismo de forma estratégica, sustentável e ancorada no território.

A proposta: um modelo de planeamento que cruza mapas, critérios e vozes locais

O que distingue este estudo é a forma como os autores propõem operacionalizar o planeamento de ciclovias sustentáveis em meio rural através de três componentes principais:

Integração de dados geoespaciais: Os autores reuniram uma vasta base de dados geográficos sobre o Véneto (nordeste de Itália), incluindo florestas, zonas agrícolas, património cultural, redes viárias, transporte público, parques naturais e paisagens agrícolas históricas.

Seleção e ponderação de critérios: Foram definidos nove critérios organizados em três categorias — ambientais (ex. declives, rios, sazonalidade), culturais (ex. património, zonas com baixa pressão turística) e económicos (ex. densidade de estradas, acessibilidade por transportes públicos). Estes critérios foram depois ponderados com base num inquérito a 53 stakeholders, incluindo decisores políticos, operadores turísticos e ciclistas.

Geração de mapas de adequação (heatmaps): Utilizando software QGIS e métodos estatísticos (Kriging, kernel density), foram criados mapas que indicam o grau de aptidão de cada zona para acolher novas rotas cicláveis. Estes mapas permitem visualizar, comparar e decidir quais os territórios com maior retorno esperado do ponto de vista ecológico, turístico e económico.

A solução proposta, em síntese, é um modelo técnico de apoio à decisão para planeamento sustentável de infraestruturas de cicloturismo, ajustável a diferentes contextos territoriais e prioridades políticas, de forma inovadora ao cruzar ciência de dados, planeamento participativo e política pública, permitindo decidir com rigor e legitimidade democrática onde e como investir.

Resultados concretos: o Planalto de Tretto como caso exemplar

A aplicação desta metodologia à região do Véneto permitiu identificar zonas de alto potencial ainda ausentes do plano regional de ciclomobilidade. Um dos casos mais notáveis é o do Planalto de Tretto, no distrito de Vicenza — um território de forte valor paisagístico e histórico, com malgas alpinas, património edificado rural, museus etnográficos e paisagens agrícolas tradicionais.

O estudo propõe a criação de uma nova rota ciclável que ligue este planalto à rede já existente (em concreto, à Rota 4 do plano regional), reforçando a conetividade e ativando um território atualmente negligenciado, mas com elevado valor ecológico e sociocultural. Esta nova rota, cuidadosamente desenhada com base na topografia e na acessibilidade, promoveria um modelo de cicloturismo de baixa emissão, culturalmente imersivo e economicamente inclusivo, integrando o território nas rotas do enoturismo e gastronomia local.

Para que serve esta metodologia? E porque é relevante para Portugal?

Este modelo permite aos territórios:

  • Priorizar investimentos com base em dados e evidência científica;
  • Evitar duplicações ou sobreposição de infraestruturas redundantes;
  • Reforçar a coesão territorial através de redes cicláveis interligadas;
  • Valorizar territórios de baixa densidade com base nos seus ativos ecológicos e culturais;
  • Envolver ativamente a comunidade local e os utilizadores finais no planeamento.

Num país como Portugal, onde vastas regiões rurais enfrentam desafios de despovoamento, fragmentação territorial e baixa atratividade turística, esta abordagem pode ser extremamente útil para integrar ciclovias com turismo cultural, enoturismo, paisagem classificada, ecoturismo e mobilidade suave.

A metodologia GIS-MCDA apresentada pode ser aplicada a nível intermunicipal, por comunidades intermunicipais, territórios UNESCO ou destinos turísticos emergentes, como base para candidaturas a financiamento europeu, planos de mobilidade suave ou estratégias de desenvolvimento rural sustentável. 


Referência: Parlato, M. C. M., & Pezzuolo, A. (2025). Rural–Urban Linkages and Development: A GIS‐MCDA Approach to Sustainable Cyclo‐Tourism and Rural Land Protection. Land Degradation & Development. https://doi.org/10.1002/ldr.5669


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