Santarém Gótica: um património em risco, oportunidade criativa

 O centro histórico de Santarém, aclamado como a "Capital do Gótico", está repleto de potencial patrimonial e turístico — mas é também um território marcado pela degradação, falta de estratégia e ausência de investimentos coordenados. Estudo recente, publicado na Revista Portuguesa de Estudos Regionais, analisa como o turismo cultural e criativo pode revitalizar este valioso núcleo urbano, propondo uma abordagem que alia identidade, inovação e envolvimento comunitário.


A necessidade de revitalizar os centros históricos das cidades portuguesas, particularmente os de pequena e média dimensão, tem sido um desafio constante para decisores públicos, agentes culturais e comunidades locais. No caso de Santarém, cidade ribeirinha com uma herança arquitetónica ímpar no panorama nacional, a situação adquire uma particular gravidade e simbolismo.

O estudo conduzido por Marisa Vieira Fragoso (IGOT-ULisboa) e Maria Assunção Gato (DINÂMIA’CET-Iscte), No Itinerário do Gótico: Preservar e Dinamizar o Centro Histórico de Santarém Através do Turismo Cultural e Criativo, parte de um diagnóstico detalhado do estado de conservação do património edificado do centro histórico de Santarém. Através de inventário físico, análise documental e entrevistas a atores locais, as autoras traçam um retrato claro: apesar do imenso potencial associado ao património gótico e à identidade cultural da cidade, existe um claro défice de valorização, com muitos edifícios encerrados, degradados ou ausentes de qualquer estratégia de mediação e acesso.

“A cidade deve ser acolhedora”, afirmou uma das entrevistadas, enfatizando a importância da experiência do visitante e da hospitalidade urbana como fatores decisivos para a atratividade turística. Outros participantes destacaram a riqueza do edificado e a urgência em reativar monumentos, equipamentos culturais e espaços públicos negligenciados. A ausência de sinalética, roteiros e conteúdos interpretativos é igualmente apontada como um dos bloqueios à dinamização do chamado “Itinerário Gótico”, proposta que, segundo o estudo, poderia articular os principais elementos patrimoniais com uma oferta criativa e imersiva para visitantes e residentes.

A proposta das autoras não é meramente conservacionista: trata-se de uma estratégia de turismo cultural e criativo centrada em experiências significativas e participativas. “A criatividade deve ser entendida como uma ferramenta para melhorar a qualidade de vida das comunidades”, defendem, citando Greg Richards. O modelo de turismo criativo, ao privilegiar a interação com a cultura local — através de oficinas, roteiros interpretativos, residências artísticas ou experiências gastronómicas — permite envolver os habitantes, reforçar a identidade e promover a regeneração urbana.

Todavia, o estudo não omite os entraves: a fragmentação da propriedade (com vários monumentos pertencentes à Diocese, à Santa Casa da Misericórdia ou ao Estado), a falta de recursos humanos, a ausência de uma política de turismo integrada e a desarticulação entre entidades locais. Ainda assim, as autoras apontam avanços recentes, como protocolos entre entidades gestoras, incentivos fiscais e iniciativas de reabilitação em curso.

A criação de um “Itinerário Gótico” é defendida como eixo estruturante, que poderia ligar monumentos, memórias e tradições, incorporando também narrativas locais, lendas, artesanato e produtos endógenos. A inclusão da comunidade no desenho e operacionalização do modelo é um ponto-chave: “o envolvimento ativo dos residentes é decisivo para o sucesso e autenticidade da experiência”, sublinham as autoras.

Principais conclusões:

  • O centro histórico de Santarém apresenta um elevado potencial patrimonial, sobretudo ligado à sua herança gótica, mas encontra-se subaproveitado e com muitos edifícios degradados ou encerrados.
  • O turismo cultural e criativo é apresentado como uma via promissora para revitalizar o centro histórico, através de experiências imersivas, educativas e colaborativas.
  • A proposta de um “Itinerário Gótico” permitiria estruturar e articular os recursos patrimoniais existentes, enriquecendo a oferta turística e valorizando o território.
  • A falta de concertação entre entidades proprietárias, ausência de sinalética, e fraca estratégia de comunicação e mediação são barreiras críticas à valorização do centro histórico.
  • O estudo recomenda uma abordagem integrada, com envolvimento da comunidade local, políticas de placemaking, formação de parcerias e reforço do investimento público.


Referência: Fragoso, M. V., & Gato, M. A. (2025). No Itinerário do Gótico: Preservar e Dinamizar o Centro Histórico de Santarém Através do Turismo Cultural e Criativo. Revista Portuguesa de Estudos Regionais, (71), 53–70. https://doi.org/10.59072/rper.vi71.713


Comentários