ElderWander: Turismo digital com rosto humano

Projeto de plataforma portuguesa aposta no design inclusivo para integrar os mais velhos na experiência turística digital

Com o envelhecimento da população europeia e a digitalização acelerada do turismo, os seniores continuam a ser largamente negligenciados na conceção de plataformas e experiências digitais. ElderWander, uma solução nascida no contexto académico português, propõe-se contrariar essa exclusão. Mais do que uma aplicação, representa uma visão: a de um turismo acessível, empático e geracionalmente justo.

Num tempo em que a inovação tecnológica dita as regras da experiência turística — das reservas aos itinerários, dos audioguias à geolocalização —, um segmento crescente da população tende a ser deixado para trás: os viajantes mais velhos. Se, por um lado, dispõem de tempo, motivação e muitas vezes de rendimentos disponíveis para viajar, por outro são sistematicamente ignorados pelos sistemas digitais, que falham em responder às suas necessidades cognitivas, físicas e relacionais.

É neste vazio que surge o projeto ElderWander, apresentado no artigo científico recentemente publicado na revista Information Technology & Tourism (5 de junho de 2025). O trabalho resulta da colaboração entre a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), reunindo os investigadores José Coelho, Diogo Lima, Pedro Moita, Carlos Duarte e Rita Costa.

O artigo descreve o desenvolvimento da plataforma ElderWander, concebida inicialmente no âmbito de uma dissertação de mestrado na FCUL, sob orientação do professor José Coelho. Este percurso académico não só estruturou o projeto em termos científicos e metodológicos, como lançou as bases para a sua futura evolução como solução tecnológica de maior escala e impacto social alargado.

Da ideia à solução: uma plataforma pensada para quem vive mais devagar

A ElderWander é mais do que uma aplicação de turismo: é um manifesto contra o ageísmo digital e uma proposta concreta para incluir os seniores nas práticas turísticas contemporâneas. O projeto recorreu a uma metodologia participativa, envolvendo utilizadores reais — pessoas com mais de 65 anos — em todas as fases do desenvolvimento: levantamento de necessidades, prototipagem, navegação assistida e testes de usabilidade.

A interface e as funcionalidades foram desenhadas com base nos princípios do design inclusivo, garantindo:
  • Simplicidade de uso, com menus visuais, navegação linear e linguagem clara;
  • Personalização de percursos, com filtros por esforço físico, duração e presença de equipamentos de apoio (bancos, casas de banho, acessos);
  • Conteúdos culturais acessíveis, que respeitam o ritmo de leitura e a curiosidade histórica de públicos seniores;
  • Interface visual acessível, com alto contraste, tipografia ampliada e estrutura lógica intuitiva.
A plataforma responde assim a um dos maiores desafios contemporâneos do turismo: a reconciliação entre tecnologia e humanidade, entre inovação e inclusão.

Uma visão para o futuro do turismo

Mais do que apresentar uma solução fechada, os autores afirmam o ElderWander como uma base de trabalho sólida para o desenvolvimento de um produto tecnológico escalável, com potencial de aplicação em diferentes regiões, contextos culturais e mercados seniores.

A investigação posiciona-se também no debate sobre envelhecimento ativo, sustentabilidade social e justiça geracional. O turismo, sugerem os autores, deve deixar de ser um privilégio dos “nativos digitais” e passar a ser um território de partilha entre gerações, onde a tecnologia serve as pessoas — e não o contrário.

Principais contributos:

  • Apresenta a ElderWander, uma plataforma digital de turismo acessível concebida para adultos seniores;
  • O projeto nasce de uma dissertação de mestrado na FCUL, com coordenação da ESHTE, e estrutura-se como uma proposta académica com viabilidade tecnológica real;
  • Utiliza metodologias participativas e centradas no utilizador, garantindo adesão e utilidade prática;
  • Propõe um modelo de turismo inclusivo e acessível, que valoriza percursos de proximidade e informação cultural clara;
  • Defende que a exclusão digital dos seniores é uma forma de ageísmo, e que a tecnologia deve ser um instrumento de justiça social e não de discriminação etária.

Referência: Costa, R., Coelho, J., Lima, D., Duarte, C., & Moita, P. (2025). ElderWander: An accessible digital tourism platform for older adults. Information Technology & Tourism, publicado a 5 de junho de 2025. https://doi.org/10.1007/s40558-025-00321-7

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