Um estudo etnográfico realizado em Fuenteheridos, Andaluzia, revela como os chamados "neo-rurais" estão a redesenhar o modelo turístico e socioeconómico de regiões afetadas pela crise rural. Rejeitando o estilo de vida urbano, estes novos habitantes apostam num turismo artesanal, ecológico e enraizado, que está a revitalizar comunidades, estimular a economia local e a promover coesão social — apesar dos conflitos latentes com a população local.
Na era da intensificação urbana e da desertificação do mundo rural, cresce em muitos territórios europeus o movimento de regresso à terra por parte de populações urbanas desiludidas com os modelos de vida convencionais. No contexto espanhol, e particularmente no sul da Europa, este fenómeno tem-se materializado na emergência de comunidades neo-rurais — cidadãos com consciência política e ecológica que procuram integrar-se no mundo rural através de práticas económicas alternativas, muitas vezes centradas no turismo sustentável, na agroecologia e nas artes.
O estudo liderado por José Manuel Álvarez-Montoya e Esteban Ruiz-Ballesteros, da Universidad Pablo de Olavide (Sevilha), oferece uma perspetiva inovadora sobre esta dinâmica, centrando-se no caso da aldeia de Fuenteheridos, situada no Parque Natural da Sierra de Aracena, na província de Huelva. A investigação baseia-se numa etnografia intensiva de nove meses, combinando entrevistas, observação participante e levantamento sistemático da atividade turística local.
Neo-rurais: mais do que migrantes por prazer
Ao contrário dos chamados amenity migrants (migrantes por comodidade) ou dos migrantes económicos tradicionais, os neo-rurais caracterizam-se por uma orientação política ativa contra o consumismo urbano, a favor da justiça social, do decrescimento e da autossuficiência. Muitos vivem de pequenas iniciativas ligadas à agricultura biológica, artesanato, terapias alternativas ou turismo — mas sempre com forte ligação à terra e à comunidade.
Em Fuenteheridos, cerca de 20% da população residente é composta por este tipo de migrantes. As suas ações têm reconfigurado o modelo turístico local, historicamente centrado em alojamento e restauração, através da introdução de novas formas de turismo experiencial, mercados de produtos naturais, visitas guiadas imersivas e oficinas artesanais.
Turismo sustentável como ferramenta de regeneração local
Os investigadores demonstram que os neo-rurais lideram 83% das atividades turísticas alternativas da aldeia — nomeadamente rotas guiadas, experiências gastronómicas veganas ou com produtos locais, venda de cosmética natural ou atividades em quintas biológicas. Estes projetos são de pequena escala, mas de grande impacto simbólico e social.
Além de diversificarem a economia e criarem novas oportunidades de emprego (especialmente para grupos sem acesso a capitais significativos), estas atividades:
- Revalorizam saberes locais como a apanha da castanha, o cultivo em hortas de montanha ou a criação de porcos ibéricos;
- Promovem práticas agroecológicas e não poluentes, que se contrapõem ao abandono agrícola;
- Criam novos espaços de sociabilidade entre residentes antigos e novos, como o mercado de outono, que permite a convivência regular entre diferentes perfis sociais.
Este modelo aproxima-se do que a literatura chama Community-Based Tourism (CBT) — um turismo gerido localmente, com benefícios que revertem para a comunidade e em que os próprios habitantes participam na definição da oferta, assegurando maior equilíbrio entre as dimensões económica, ambiental e sociocultural.
Mas nem tudo são flores: tensões e barreiras à integração
Apesar do impacto positivo evidente, o estudo identifica também conflitos persistentes entre os neo-rurais e os habitantes locais. As causas são várias:
- Diferentes visões sobre o território e os recursos (uso da floresta, turismo informal, práticas agrícolas);
- Choques culturais e estereótipos (os “hippies” contra os “tradicionais”);
- Desigualdades no acesso a apoios públicos e perceção de favoritismo político;
- Falta de colaboração efetiva em projetos conjuntos, o que limita o potencial transformador do turismo comunitário.
A investigação aponta que onde há contacto direto e trabalho conjunto — como nos mercados, eventos ou pequenas parcerias entre restaurantes e guias — as relações tendem a melhorar, abrindo caminho à criação de “terrenos comuns” que fortalecem a coesão social e a resiliência comunitária.
Para pensar em Portugal: uma oportunidade estratégica
O caso de Fuenteheridos é exemplar e pode oferecer inspiração valiosa a territórios de baixa densidade em Portugal, sobretudo aqueles com potencial de atração de novos residentes com valores ambientais e culturais. Algumas pistas estratégicas que este estudo sugere:
- Criar condições de acolhimento para neo-rurais com projetos sustentáveis, nomeadamente através de incentivos ao empreendedorismo verde e criativo;
- Fomentar modelos de turismo comunitário com base nos recursos e saberes locais;
- Promover mediação cultural entre diferentes perfis de residentes para prevenir conflitos e garantir maior inclusão social;
- Incluir os neo-rurais em processos participativos de planeamento turístico, reconhecendo a sua capacidade de inovação.
A regeneração rural, neste paradigma, não depende apenas de investimento ou marketing territorial. Depende sobretudo da capacidade de acolher novos agentes de mudança — com visões alternativas, capacidade de criação e vontade de integrar — sem desvalorizar o legado, os ritmos e os direitos das comunidades locais.
Referência: Álvarez-Montoya, J. M., & Ruiz-Ballesteros, E. (2025). Neo-Rurals and Tourism in the Context of Rural Crisis in Southern Europe: Case Study in the Sierra de Aracena (Andalusia, Spain). Rural Sociology, 0(0), 1–15. https://doi.org/10.1111/ruso.70010

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