Um estudo publicado no número julho-setembro da revista PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, analisa os Passadiços do Mondego como projeto emblemático de turismo pedestre em Portugal. Escutando as vozes dos visitantes e dos residentes, os autores revelam perceções contrastantes sobre os efeitos desta infraestrutura no desenvolvimento local, sublinhando a importância de distinguir entre entusiasmo turístico e transformação territorial duradoura.
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| Foto Passadiços do Mondego |
Situados no coração da Beira Interior, nos vales escarpados do rio Mondego, os Passadiços do Mondego constituem uma das mais recentes apostas do turismo de natureza em Portugal. Inaugurado em finais de 2022, o percurso, com cerca de 12 quilómetros, estende-se entre a barragem do Caldeirão e as aldeias de Videmonte e Trinta, atravessando zonas de elevado valor paisagístico, ambiental e simbólico. Integrado numa estratégia de valorização da Serra da Estrela e da cidade da Guarda, o projeto tem sido publicamente celebrado como um exemplo de dinamização territorial em contexto rural. Mas será o impacto tão claro quanto o discurso político e promocional sugere?
É precisamente essa a questão central do artigo “Hiking tourism and rural development: The case of the Mondego Walkways, Portugal”, assinado por Luís Silva, Francisco Freire, António Azevedo e Rute Matos, equipa multidisciplinar de várias universidades portuguesas. Publicado em 2025 na revista científica PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, o estudo assenta numa abordagem metodológica mista: por um lado, um inquérito presencial realizado junto de 299 visitantes; por outro, 16 entrevistas semi-estruturadas conduzidas a residentes e agentes locais diretamente envolvidos ou afetados pelo projeto. Esta conjugação permite aos autores aceder a uma pluralidade de perceções, cruzando os olhares exteriores com as vivências quotidianas do território.
Os resultados da investigação confirmam uma dualidade recorrente em processos deste tipo. Por um lado, há uma perceção amplamente positiva quanto à capacidade dos passadiços para atrair visitantes, gerar consumo e dar visibilidade ao território. Tanto visitantes como residentes reconhecem o aumento da frequência de cafés, restaurantes e alojamentos locais desde a abertura do percurso, bem como um maior destaque mediático da região. O turismo pedestre é valorizado como forma de lazer saudável e sustentável, e a existência de infraestruturas bem mantidas é vista como sinal de investimento público em zonas frequentemente esquecidas.
No entanto, essa convergência não se estende a todas as dimensões. Quando questionados sobre o potencial dos passadiços para travar o despovoamento e gerar desenvolvimento local duradouro, os discursos começam a divergir. A maioria dos visitantes acredita que o projeto pode contribuir para fixar população e estimular atividades económicas complementares, mas os residentes, com maior conhecimento do território, expressam ceticismo. As críticas não se dirigem tanto à existência dos passadiços em si, mas antes ao que lhes falta: envolvimento efetivo da comunidade local, distribuição equitativa dos benefícios, e integração numa estratégia territorial mais ampla.
O estudo sublinha, aliás, que a participação da população no desenho e implementação do projeto foi mínima. Vários interlocutores locais referem que as aldeias atravessadas pelo percurso ou suas imediações pouco beneficiam da afluência turística. Os impactos positivos concentram-se maioritariamente na cidade da Guarda e em unidades empresariais com maior capacidade de captação do fluxo de visitantes. Além disso, os empregos gerados são escassos e, em geral, de baixa qualificação, o que limita a sua relevância estrutural num território profundamente marcado pelo envelhecimento e pelo declínio económico.
Outro aspeto interessante é a diferença de perceção sobre a paisagem. Para muitos turistas, o percurso é vivido como um espaço natural, quase intocado, onde se procura o silêncio, o ar puro e a beleza da vegetação ribeirinha. Já para os residentes, trata-se de uma paisagem profundamente marcada pela história humana — pelos lanifícios, pelas levadas, pelos antigos caminhos rurais. Esta divergência sugere uma tensão latente entre a lógica do consumo estético da natureza e a memória viva do território, muitas vezes silenciada nas narrativas promocionais.
No final do artigo, os autores defendem que os passadiços não devem ser vistos como uma solução mágica, mas como uma oportunidade que requer consolidação. Para que projetos como este contribuam verdadeiramente para o desenvolvimento rural, são necessários mecanismos de governação partilhada, articulação com outras dimensões da vida local — da agricultura ao património imaterial — e políticas públicas que assegurem investimento, acompanhamento e correção de assimetrias. Caso contrário, arrisca-se a que o sucesso visível do percurso se transforme numa “monocultura do caminhar”: atraente, mas insuficiente.
Este estudo é um contributo valioso para o debate em torno do papel do turismo pedestre no interior português. Ao dar voz aos residentes e escutar as suas inquietações, alerta para os limites de uma visão tecnocrática do desenvolvimento, assente em infraestruturas e indicadores de afluência. Caminhar, afinal, pode ser uma metáfora para o ritmo que o território exige: nem demasiado rápido, nem excessivamente superficial — mas atento, comprometido e com sentido de futuro.
Principais conclusões:
- Os Passadiços são amplamente reconhecidos como promotores de turismo e consumo local, sobretudo em cafés, restaurantes e alojamento;
- Visitantes tendem a atribuir-lhes potencial para reverter o despovoamento, mas essa perceção não é partilhada pelos residentes, que se mostram mais cautelosos e realistas;
- Os benefícios económicos são desigualmente distribuídos, concentrando-se sobretudo em agentes da cidade da Guarda;
- Falta articulação com a identidade cultural e económica das aldeias atravessadas, bem como mecanismos de participação local efetiva;
- A infraestrutura, embora bem-sucedida enquanto produto turístico, só contribuirá para o desenvolvimento rural se for integrada numa estratégia territorial ampla, participativa e sustentável.
Referência: Silva, L., Freire, F., Azevedo, A., & Matos, R. (2025). Hiking tourism and rural development: The case of the Mondego Walkways, Portugal. PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 23(3), 831–841. https://doi.org/10.25145/j.pasos.2025.23.052

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