Sustentabilidade, tecnologia e co-criação: uma nova tríade para o turismo do futuro

É já consensual nos meios académicos e profissionais que o turismo sustentável é um imperativo do nosso tempo. Mas será que os turistas que afirmam valorizar a sustentabilidade estão verdadeiramente dispostos a envolver-se em práticas participativas e interativas, como a co-criação de experiências? E que papel pode desempenhar a tecnologia nesse processo?

Foi para responder a estas questões que uma equipa multidisciplinar de investigadores das Escolas Superiores de Comunicação Social, Ciências Empresariais e Hotelaria do ensino politécnico português conduziu um estudo empírico na região de Lisboa, envolvendo mais de 400 turistas. O artigo, publicado na revista Investigaciones Turísticas (n.º 30, 2025), demonstra que os valores de sustentabilidade, por si sós, não são suficientes para induzir comportamentos de co-criação — mas que a tecnologia pode funcionar como catalisador dessa transformação comportamental.

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O estudo conduzido pelo consórcio de investigadores revela como a tecnologia atua como ponte entre os valores de sustentabilidade dos turistas e a sua efetiva participação em experiências de co-criação. A investigação, centrada na região de Lisboa, propõe um novo modelo teórico e oferece pistas estratégicas para destinos turísticos que pretendam alinhar inovação digital com responsabilidade ambiental e social.

O paradoxo da sustentabilidade passiva

O estudo parte de um modelo conceptual que integra várias teorias consolidadas, como a Teoria do Comportamento Planeado, a Value-Belief-Norm Theory e o Technology Acceptance Model (TAM). Os autores queriam saber se existe uma relação direta entre os valores de sustentabilidade e a intenção dos turistas em participar ativamente na criação das suas experiências turísticas — isto é, na co-criação, um conceito que pressupõe envolvimento ativo com os prestadores de serviços, com o destino e até com outros viajantes.

A conclusão surpreende: os turistas que valorizam a sustentabilidade não estão necessariamente mais predispostos à co-criação, a menos que percecionem a tecnologia como facilitadora dessa participação. Em suma, muitos turistas conscientes dos impactos ambientais preferem comportamentos de consumo passivo (como escolher um hotel com certificado ecológico), mas não se envolvem espontaneamente em experiências mais interativas ou colaborativas.

O papel da tecnologia como mediador

O que a análise dos dados revelou com clareza é que a perceção da importância da tecnologia influencia significativamente tanto a valorização da co-criação como a intenção de participação nas experiências. Em termos técnicos, a tecnologia atua como variável mediadora plena: sem ela, os valores de sustentabilidade não geram comportamentos de co-criação.

Plataformas digitais, aplicações móveis, realidade aumentada, ferramentas de planeamento com IA e até tecnologias baseadas em blockchain são referidas no estudo como meios eficazes de traduzir o compromisso sustentável em ação participativa concreta. Por exemplo, turistas que usam apps para calcular a pegada de carbono ou que participam em plataformas gamificadas de turismo ecológico estão mais predispostos a colaborar ativamente com os destinos.

Estratégias para destinos turísticos e decisores

As implicações práticas do estudo são vastas e relevantes para quem planeia ou gere destinos turísticos. Em vez de presumir que turistas “verdes” vão, por iniciativa própria, procurar atividades imersivas, o estudo sugere que os destinos devem:

  • Integrar soluções tecnológicas centradas na experiência do utilizador (UX), como itinerários inteligentes com alertas sobre impacto ambiental;
  • Utilizar a realidade aumentada para enriquecer visitas culturais com contextos de sustentabilidade (por exemplo, mostrar em tempo real dados sobre eficiência energética de monumentos ou práticas agrícolas locais);
  • Incluir ferramentas participativas baseadas em blockchain, como tokens sustentáveis que recompensem comportamentos responsáveis;
  • Gamificar práticas sustentáveis através de apps que desafiem os visitantes a reduzir o consumo de recursos ou a contribuir para ações de conservação;
  • Fomentar comunidades digitais de viajantes comprometidos com a co-criação e a sustentabilidade, criando fóruns, rankings ou sistemas de reconhecimento simbólico.

A co-criação como alicerce do turismo sustentável

Um dos méritos maiores deste trabalho reside na forma como reformula a narrativa da sustentabilidade turística. Em vez de depender apenas da adesão ética dos viajantes, o estudo propõe um modelo mais interativo, tecnológico e experiencial. A verdadeira sustentabilidade, sugere-se, nasce da confluência entre:

  • Valores e atitudes pessoais, que funcionam como base moral;
  • Tecnologia inteligente, que permite transformar intenções em ações;
  • Ambientes de co-criação, que reforçam o sentido de pertença e a ligação emocional ao destino.

Num momento em que tantos territórios procuram diferenciar-se como “sustentáveis”, este estudo lança um alerta pertinente: sem tecnologia e sem participação ativa dos turistas, a sustentabilidade corre o risco de ser apenas retórica.


Referência: Costa, T., Machado, A. T., Nunes, S., Raposo Santos, Z., Segurado Severino, F., Cristina, M., & Roque, A. G. (2025). Sustainability, technology and co-creation: A virtuous circle for sustainable tourism in Lisbon region. Investigaciones Turísticas, (30), 315–338. https://doi.org/10.14198/INTURI.28524

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