Portugal continua a quebrar recordes de turismo, mas a contagem de dormidas e receitas já não chega para dizer se estamos no caminho certo. A OCDE acaba de entregar um roteiro de 24 indicadores — claros, comparáveis e territoriais — que podem transformar a forma como o país gere o setor.
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| Ilha do Pico, Açores |
O turismo português não é apenas uma história de sucesso económico: é também um teste à capacidade de crescer sem comprometer território, recursos e comunidades. Em 2024, registámos 80,3 milhões de dormidas e 27,7 mil milhões de euros em exportações de viagens — 9,7% do PIB. Mas a pressão faz-se sentir: sazonalidade extrema, consumo de água e energia em alta, resíduos e mobilidade a rebentar costuras, tensões no acesso à habitação e desgaste social em zonas de maior afluxo.
É neste contexto que a OCDE publicou recentemente Strengthening the evidence base for a sustainable tourism future in Portugal, documento cirúrgico com 24 indicadores subnacionais organizados em 11 prioridades de política, concebidos para serem operados tanto pelas regiões como a nível nacional. Mais do que um sistema estatístico, é uma bússola para decisões rápidas e informadas.
O relatório assenta numa abordagem mista — de cima para baixo e de baixo para cima. Do lado nacional, a Estratégia Turismo 2027 e os instrumentos do Turismo de Portugal definem o quadro macro; do lado regional, os observatórios de turismo sustentável identificam problemas concretos e colhem dados no terreno.
O objetivo é que cada indicador sirva para atuar: estabelecer linhas de base, definir metas, monitorizar resultados e corrigir políticas.
As 11 prioridades e os seus indicadores-chave
A OCDE não se limita a sugerir áreas genéricas. Desenha um mapa preciso que traduz o que é urgente medir — e gerir — em Portugal, a ver:
Sazonalidade
- Taxa de dormidas nos meses de pico (julho a setembro) e distribuição mensal.
- 2023: média nacional de 35,2% no verão; Algarve chega aos 41,1%.
- Sinal claro para políticas de descompressão de fluxos e incentivos à visita fora de época.
Contribuição económica local
- Percentagem de empresas e emprego no turismo por município.
- Não basta saber quanto o setor fatura; importa saber onde e para quem gera rendimento.
Gestão de resíduos
- Toneladas de resíduos atribuíveis ao turismo e taxa de recolha seletiva.
- Meta: integrar metas ambientais no licenciamento e certificação de alojamentos.
Gestão da água
- Percentagem de unidades de alojamento com sistemas de eficiência hídrica.
- Subiu de 54,7% (2015) para 68% (2022), mas a pressão estival exige mais.
Mitigação climática
- Emissões de gases com efeito de estufa associadas ao turismo.
- Integração com estratégias regionais de neutralidade carbónica.
Serviços públicos financiados pelo turismo
- Municípios com taxa turística e montantes aplicados em contrapartidas para residentes.
Bem-estar comunitário
- Índice de aceitação dos residentes; impacto na qualidade de vida local.
- A “capacidade de carga social” entra no léxico da gestão turística.
Mobilidade sustentável
- Investimento em transporte público e quilómetros de ciclovias ligadas a pontos turísticos.
- Nos Açores e no Alentejo, começam a surgir projetos piloto com sensores para medir uso real.
Emprego de qualidade
- Nível de qualificações e salários no setor, cruzando dados da Segurança Social e IEFP.
- Fundamental para reter talento e contrariar rotatividade elevada.
Biodiversidade e paisagem
- Percentagem de território turístico em áreas protegidas com plano de gestão ativo.
- Distribuição territorial dos fluxos
- Percentagem de visitantes em destinos não tradicionais; número de iniciativas de dispersão (ex.: shuttles, circuitos temáticos).
A engrenagem por trás dos números
O motor desta mudança é a rede de Observatórios Regionais de Turismo Sustentável, alinhados com a rede internacional INSTO (UN Tourism). A nível central, o Sistema de Informação Turística Sustentável (SITS) e o TravelBI funcionam como repositórios e plataformas de partilha.
O plano prevê que cada região lidere pelo menos uma área de indicadores, desenvolvendo metodologias comuns e participando em mesas de harmonização de dados. Assim, o Algarve poderá ser referência na medição da sazonalidade, enquanto os Açores lideram em mobilidade sustentável e o Norte em emprego de qualidade.
Lacunas a fechar
Dos 24 indicadores, 10 já podem ser medidos de imediato com dados nacionais existentes. Os restantes exigem recolha ou harmonização adicionais, sobretudo nos domínios de:
- Mobilidade sustentável;
- Emprego de qualidade;
- Contribuição fiscal local;
- Consumo de água e energia.
A OCDE recomenda que estes “buracos” sejam tratados como prioridade operacional, pois sem dados não há gestão nem prestação de contas.
O relatório é claro: medir não é fim em si mesmo, mas condição para decidir com base em evidência. Com indicadores sólidos, as políticas podem passar do discurso para a ação — seja ajustando taxas turísticas à pressão real, calibrando investimentos em mobilidade, ou criando incentivos à desestacionalização com base em números e não em impressões.
Principais conclusões:
- 24 indicadores, organizados em 11 prioridades, vão permitir avaliar sustentabilidade turística a nível nacional e regional.
- Pressões mais críticas: água, sazonalidade, bem-estar comunitário, emprego de qualidade e mobilidade.
- Rede de observatórios regionais e plataforma TravelBI asseguram recolha, partilha e harmonização de dados.
- 10 indicadores prontos para uso imediato; os restantes exigem recolha e coordenação acrescida.
- A aposta é clara: substituir métricas de volume por métricas de impacto, equilibrando valor económico com limites ambientais e sociais.
Referência: OECD (2025). Strengthening the evidence base for a sustainable tourism future in Portugal: A tailored set of sustainability indicators (OECD Tourism Papers 2025/06). Paris: OECD Publishing. DOI: 10.1787/e362c609-en

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