Pode o investimento público em turismo ser motor de regeneração de territórios periféricos e despovoados? O caso galego do Parador da Costa da Morte, analisado por Fidel Martínez-Roget (Universidade de Santiago de Compostela) e Brais Castro (Universidade da Coruña), mostra como uma infraestrutura de luxo, promovida pelo Estado, procura inverter décadas de marginalização, projetando novas oportunidades de desenvolvimento no litoral atlântico da Galiza.
A rede espanhola de Paradores Nacionales é uma das marcas mais distintivas do turismo espanhol. Criada em 1928, transformou dezenas de edifícios históricos e paisagens de exceção em hotéis de charme sob gestão pública. O Parador da Costa da Morte, inaugurado em 2020 junto à Praia de Lourido, no município de Muxía, é um dos mais recentes e também um dos mais emblemáticos projetos da rede.
Implantado numa região profundamente marcada pela ruralidade, pelo declínio demográfico e por episódios de crise ambiental e social — como a vaga migratória de meados do século XX ou o desastre ecológico do Prestige em 2002 —, o Parador surge como símbolo de uma nova estratégia. Mais do que oferecer alojamento de luxo, representa a tentativa do Estado espanhol de ancorar a regeneração económica e social da Costa da Morte num projeto turístico de grande escala, capaz de atrair visitantes, investimento e notoriedade.
Turismo como ferramenta de regeneração
O estudo publicado na revista Land destaca que a presença do Parador teve efeitos imediatos na projeção da região. Ao ser integrado nos circuitos turísticos da Galiza, o hotel reforçou a visibilidade da Costa da Morte em mercados nacionais e internacionais, tornando-se um ponto de atração num território que, até então, permanecia relativamente marginal no mapa turístico espanhol.
Esse aumento da atratividade traduziu-se na criação de emprego direto e indireto. O Parador gerou postos de trabalho qualificados na hotelaria, mas também alimentou cadeias de serviços de apoio, desde a restauração local até aos transportes, guias turísticos e comércio de proximidade. Ao mesmo tempo, ajudou a mitigar o isolamento territorial, criando uma nova centralidade num espaço que durante décadas se sentiu afastado das grandes dinâmicas económicas da Galiza.
Contudo, Martínez-Roget e Castro lembram que os efeitos positivos só se tornam estruturais se acompanhados de políticas complementares. Sem estratégias que permitam redistribuir os benefícios para a comunidade local, existe o risco de o investimento público ficar concentrado na infraestrutura em si, gerando um enclave turístico que pouco contribui para a vida quotidiana da população.
Oportunidades e riscos
O modelo apresenta-se, assim, como um desafio de equilíbrio. Se, por um lado, o Parador constitui uma âncora de regeneração e reposiciona a Costa da Morte como destino de excelência, por outro levanta interrogações sobre a sua integração nas dinâmicas comunitárias. Existe o perigo de se transformar numa “ilha de luxo”, com fraca permeabilidade ao tecido local, funcionando mais como vitrina de prestígio do que como motor inclusivo de desenvolvimento.
Outro ponto sensível prende-se com o impacto sobre a paisagem e a identidade cultural. O edifício, moderno e de grande escala, contrasta com a arquitetura tradicional da região. A sua presença levanta questões sobre a forma como o turismo deve respeitar, ou reinterpretar, o carácter singular dos territórios rurais. Neste sentido, o Parador deve ser entendido não como solução final, mas como alavanca que só cumpre plenamente o seu papel se articulada com estratégias participativas de desenvolvimento sustentável.
Lições para Portugal
O exemplo galego oferece lições relevantes para Portugal. Também aqui existem territórios de baixa densidade e regiões periféricas que enfrentam desafios de despovoamento, envelhecimento e falta de centralidade turística. As Pousadas de Portugal, embora criadas em moldes diferentes e com menor peso do investimento estatal direto, partilham com os Paradores a ideia de que a hospitalidade pode ser motor de valorização patrimonial e de dinamização económica. Contudo, ao contrário de Espanha, Portugal não tem investido em novas unidades públicas de grande escala em zonas rurais frágeis, preferindo estratégias assentes em incentivos ao investimento privado.
O caso da Costa da Morte convida a refletir se, em determinados contextos, um investimento público estruturante poderia desempenhar um papel catalisador semelhante ao do Parador. Sobretudo em territórios do interior ou em regiões afetadas por declínio demográfico persistente, a aposta numa infraestrutura âncora — desde que acompanhada por políticas de envolvimento comunitário e sustentabilidade — poderia ajudar a recolocar esses espaços no mapa turístico e económico nacional.
Referência: Martínez-Roget, F., & Castro, B. (2023). State-Led Tourism Infrastructure and Rural Regeneration: The Case of the Costa da Morte Parador (Galicia, Spain). Land, 14(7), 1636. https://doi.org/10.3390/land14071636

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