Património imaterial em rede: como as redes sociais estão a reescrever a mediação cultural

A atenção é um bem crescentemente escasso e a cultura disputa espaço com o entretenimento instantâneo. Perante isto, o património imaterial encontrou nas redes sociais um novo palco — e novos dilemas. No artigo Promotion of Intangible Heritage on Social Media, assinado por Arabela Briciu, Victor-Alexandru Briciu, Adina Nicoleta Candrea, Mihai Lucian Pascu, Androniki Kavoura e Lavinia Constantinescu — equipa maioritariamente romena com coautoria grega —, discute-se de que modo Facebook, Instagram, TikTok ou YouTube podem impulsionar a visibilidade, a transmissão e a recriação de práticas culturais vivas, da música e da dança às festividades e aos saberes artesanais.

Caretos de Podence, Trás-os-Montes (CC BY-NC-ND - Associação Grupo de Caretos de Podence)


O texto integra o volume Tourism, Resilience and Sustainability: Building Forward Better in Times of Global Challenges (Springer, 2025), editado por Fabiana Gondim Mariutti, Eduardo Moraes Sarmento e Carlos Costa.

Do arquivo ao algoritmo: o salto para a esfera social


O património imaterial não se preserva em vitrinas; existe em performance, em contexto e em comunidade. Por isso, a sua salvaguarda sempre dependeu de continuidade social e de capacidade de adaptação. As redes sociais introduzem aqui uma mudança estrutural: transformam práticas localizadas em conteúdos globalmente circuláveis, com uma economia de atenção governada por algoritmos. Esta passagem do arquivo para o feed abre oportunidades — alcançar públicos novos, mobilizar diásporas, atrair visitantes interessados em experiências autênticas — mas também desloca o centro de gravidade da mediação. 

Hoje, uma marcha tradicional pode ganhar tração porque um reel viralizou; um canto ritual pode conquistar audiência porque encaixa num trend sonoro. O desafio é governar esta visibilidade sem amputar contexto, sentido e autoria.

Plataformas como ecossistemas de cocriação

O artigo defende que as redes, quando apropriadas pelas próprias comunidades, podem funcionar como laboratórios de cocriação. A câmara do telemóvel deixa de ser mero registo e torna-se ferramenta de agência cultural: jovens documentam processos de transmissão intergeracional; artesãos mostram técnicas passo a passo; grupos locais editam micro-documentários; associações produzem calendários digitais de festas e romarias. 

Esta produção bottom-up tem efeitos reputacionais e económicos: reforça o orgulho identitário, atrai micro-mecenato e abre canais diretos de comercialização ligados à economia criativa (aulas, workshops, venda de peças, programação cultural). A chave, notam os autores, está na curadoria participativa: conteúdos que respeitam ritmos, códigos e valores da comunidade são mais sustentáveis do que campanhas impostas de fora para dentro.

Entre a visibilidade e a diluição: riscos a gerir

Nenhuma oportunidade vem isenta de custos. A primeira tensão é a espetacularização: práticas complexas comprimem-se em segundos, filtradas para agradar ao algoritmo. A segunda é a descontextualização: quando o enquadramento histórico e simbólico se perde, o que resta pode ser apenas um exotismo consumível. A terceira é a apropriação: sem regras claras, imagens, sons e coreografias circulam sem crédito ou consentimento. O capítulo sublinha a necessidade de governação cultural: linhas de orientação sobre direitos de autor e copyright comunitário, consentimentos informados, documentação paralela (descrições, landing pages com contexto, ligações para arquivos), bem como parcerias entre portadores de tradição, investigadores, museus e entidades de turismo.

Turismo, sustentabilidade e redistribuição territorial

No cruzamento com o turismo, a promoção digital do património imaterial pode ser um aliado estratégico da sustentabilidade. Em vez de concentrar atenções nos ícones saturados, as narrativas digitais permitem dispersar fluxos para territórios de baixa densidade, estimular temporadas intermédias e articular a visita com programação cultural genuína. 

Quando bem desenhadas, as campanhas sociais funcionam como “convites qualificados”: atraem quem procura envolvimento e aprendizagem, não apenas consumo rápido. Os autores insistem, porém, que os benefícios devem ficar no território: bilhética solidária, circuitos com guias locais, lojas de produtores, alojamento de pequena escala e reinvestimento comunitário são mecanismos que convertem visibilidade em rendimento justo e continuado.

Pistas para políticas e profissionais

Para decisores e destinations managers, os autores deixam pistas operacionais. A primeira é investir em alfabetização digital comunitária: formar agentes locais para produção ética e eficaz de conteúdos, leitura de métricas e gestão de comunidades online. A segunda é construir catálogos digitais com storytelling contextual, evitando que a prática se reduza ao vídeo virado para o algoritmo. A terceira é desenvolver protocolos de salvaguarda específicos para ambientes digitais (documentação, créditos, hashtags oficiais, etiquetas de uso). Por fim, medir o que realmente importa: além de “gostos” e visualizações, importa acompanhar indicadores de participação local, transmissão intergeracional, receita retida no território e desestacionalização associada a eventos patrimoniais.

Um diálogo direto com a realidade portuguesa

A leitura deste capítulo ecoa no contexto português. O Fado, o Cante Alentejano ou os Caretos de Podence já experimentaram fortes ciclos de visibilidade digital, com impactos na programação, no turismo cultural e no orgulho identitário. A lição central aplica-se a norte e a sul: quanto mais próximos estiverem os conteúdos das comunidades que os geram — e quanto mais claros forem os mecanismos de benefício local —, maior a probabilidade de que a presença online fortaleça, em vez de diluir, o património vivo. 

Para regiões de baixa densidade, esta é também uma estratégia de desenvolvimento territorial: combinar calendário de festividades com planos de capacitação digital, acolhimento turístico e proteção jurídica de conteúdos. 

Este capítulo integra um volume que importa sublinhar e é de acesso aberto. A obra reúne perspetivas internacionais sobre o papel do turismo em contextos de crise e transformação, explorando as ligações entre património, inovação e resiliência. Tourism, Resilience and Sustainability: Building Forward Better in Times of Global Challenges pode ser lido e descarregado gratuitamente na plataforma Springer.



Referência do capítulo: Briciu, A., Briciu, V.-A., Candrea, A. N., Pascu, M. L., Kavoura, A., & Constantinescu, L. (2025). Promotion of Intangible Heritage on Social Media. In F. G. Mariutti, E. M. Sarmento & C. Costa (Eds.), Tourism, Resilience and Sustainability: Building Forward Better in Times of Global Challenges. Springer. (Acesso aberto)


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