Douro em transformação: Sustentabilidade e competitividade como estratégia territorial integrada

 A paisagem cultural do Douro, reconhecida pela UNESCO e admirada em todo o mundo, assenta numa equação frágil: solo vulnerável, clima em mutação, economia assimétrica e pressões turísticas que ora revelam potencial, ora ameaçam o próprio equilíbrio da região. É num momento de aceleração dessas tensões que surge o estudo “A strategy for sustainability and competitiveness in wine production and tourism in Portugal's Douro Valley”, assinado por Alberto Baptista, António Fontaínhas-Fernandes e Teresa Sequeira (UTAD, CETRAD e CITAB).

Foto de Eduardo Lages na Unsplash

A investigação assume, desde o início, uma tese clara: só uma estratégia simultaneamente ecológica, económica e governativa pode garantir o futuro do Douro. Os autores escrevem que a região necessita de “uma visão sistémica que alinhe produção, turismo e conservação, sob pena de comprometer a sua resiliência enquanto paisagem produtiva e património cultural”.

O diagnóstico: uma paisagem de excelência com vulnerabilidades profundas

O estudo traça um retrato rigoroso da região, destacando a intensidade dos desafios ambientais. As alterações climáticas fazem-se sentir de forma particularmente severa no vale: erosão acentuada, picos térmicos mais frequentes, pressão hídrica crescente e empobrecimento dos solos. Segundo os autores, sem uma mudança significativa nas práticas agrícolas, “a viticultura duriense poderá enfrentar um limiar crítico de sustentabilidade produtiva”.

A isto junta-se um quadro económico frágil e assimétrico. Apesar da reputação internacional, a distribuição do valor continua muito desigual e a dependência estrutural do setor dos vinhos coloca a região numa posição vulnerável perante choques externos. A renovação geracional é limitada e muitos pequenos produtores operam numa lógica de sobrevivência.

O turismo acrescenta complexidade. O enoturismo, hoje decisivo para o rendimento local, intensifica pressões sobre o território e sobre o património construído, ao mesmo tempo que amplifica oportunidades de desenvolvimento económico. Os autores sublinham que “o turismo é simultaneamente oportunidade e risco, dependendo da sua governança e integração territorial”.

Uma estratégia integrada para o futuro

A principal contribuição do estudo residirá na articulação de uma estratégia de competitividade sustentável assente em quatro eixos, apresentada não como um plano rígido, mas como uma matriz de orientação estratégica.

1. Sustentabilidade ecológica como alicerce da competitividade

A região deve compreender a sustentabilidade não como custo, mas como vantagem estratégica. Para os autores, a regeneração dos solos, a gestão eficiente da água, a valorização da biodiversidade e a adaptação climática constituem “o novo léxico competitivo do setor vitivinícola”.

2. Diversificação económica e inovação territorial

A economia duriense não pode continuar dependente de monoculturas — nem do ponto de vista agrícola, nem turístico. É necessária uma diversificação que inclua:

  • produtos agroalimentares diferenciados,
  • experiências culturais de base comunitária,
  • investigação aplicada ao setor agrícola e turístico,
  • inovação tecnológica e digitalização da cadeia de valor.

“O Douro”, afirmam os autores, “tem uma identidade multifacetada que deve ser traduzida numa economia igualmente multifacetada”.

3. Enoturismo sustentável e distribuído

O estudo alerta para o risco de concentração territorial do turismo, que gera desigualdades internas e sobrecarga em determinadas localidades. O enoturismo deve contribuir para a preservação da paisagem, para o envolvimento das comunidades e para a dinamização económica distribuída. Os visitantes devem ser conduzidos através de experiências interpretativas, lentas e ecológicas — não apenas pela estética, mas pela compreensão profunda do território.

4. Governança multissetorial

Talvez a mais enfática das conclusões: o Douro não sobreviverá sem governança integrada. Os autores defendem a criação de plataformas articuladas entre produtores, municípios, entidades de turismo, estruturas científicas, associações regionais e comunidades locais. A complexidade dos desafios exige coordenação, informação e estratégia a longo prazo.

O trabalho de Baptista, Fontaínhas-Fernandes e Sequeira oferece uma visão estratégica estruturada para o Douro, mas o seu alcance ultrapassa em muito a região. Portugal enfrenta, em várias áreas vitivinícolas e turísticas, os mesmos dilemas: dependência económica, vulnerabilidade climática, desertificação humana e tensões entre crescimento turístico e preservação patrimonial.

O Douro torna-se, assim, um laboratório nacional — um território onde a articulação entre ciência, produção e turismo pode mostrar caminhos para outras regiões. O estudo sublinha que “a sustentabilidade não é uma opção setorial, mas uma condição estrutural para a competitividade dos territórios”.

Principais conclusões — síntese final

  • A sustentabilidade ecológica é uma condição indispensável para a competitividade duriense e deve alinhar-se com práticas agrícolas regenerativas e adaptação climática.
  • A diversificação económica é urgente: o Douro não pode depender apenas do vinho nem de um modelo turístico concentrado.
  • O enoturismo deve evoluir para práticas lentas, ecológicas e distribuídas no território, reforçando a autenticidade cultural.
  • A governança integrada é a chave da transformação: sem colaboração multissetorial e visão comum, nenhuma estratégia será sustentável.
  • O Douro é um caso de estudo internacional sobre como paisagens produtivas podem tornar-se modelos de sustentabilidade económica, ambiental e social.


Referência: Baptista, A., Fontaínhas-Fernandes, A., & Sequeira, T. (2025). A strategy for sustainability and competitiveness in wine production and tourism in Portugal's Douro Valley. Centre for Transdisciplinary Development Studies (CETRAD) & Centre for Research and Technology in Agro-Environmental and Biological Sciences (CITAB), Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.


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