As cidades tornaram-se sensores, as viagens são cada vez mais dados. No turismo contemporâneo, o digital deixou de ser bastidor e passou a ser palco. É neste contexto que o estudo “Shaping Smart Tourism: A Bibliometric and Benchmarking Analysis of IoT Trends”, assinado por Sílvia Fernandes, da Faculty of Economics and CinTurs — Research Centre for Tourism, Sustainability and Well-Being, e Fátima Carvalho, também investigadora do CinTurs, em Faro, propõe uma leitura reveladora: compreender como a Internet das Coisas (IoT) está a moldar o turismo inteligente, quais são os temas mais pesquisados e que caminhos práticos se abrem para transformar tecnologia em experiência e inovação sustentável.
A análise, publicada em novembro de 2025, mergulha em centenas de artigos académicos para decifrar as principais tendências científicas e tecnológicas que associam IoT e turismo. As autoras aplicam métodos bibliométricos — que permitem mapear redes de coautoria, conceitos e palavras-chave — e cruzam-nos com um exercício de benchmarking, analisando prémios e casos de sucesso internacionais.
O resultado é um retrato vivo de um campo em expansão, mas ainda fragmentado: enquanto os estudos se multiplicam em torno da personalização da experiência (recommender systems), da monitorização ambiental e da segurança, falta uma visão sistémica que una estes esforços num modelo coerente de destino inteligente.
A cartografia obtida revela três grandes núcleos conceptuais:
- a personalização e os sistemas de recomendação, que usam sensores e dados para adaptar ofertas e itinerários;
- o desenvolvimento de smart destinations, onde a tecnologia integra mobilidade, energia e informação turística;
- a convergência entre IoT, Inteligência Artificial e Big Data, que promete transformar a gestão de destinos em tempo real.
Mais do que uma revisão teórica, o estudo revela como a investigação académica antecipa a prática, e como a linguagem dos dados está a redesenhar a forma como os lugares são imaginados e experienciados.
Da promessa tecnológica à gestão inteligente
Um dos méritos do trabalho de Fernandes e Carvalho é desmontar a ideia de que IoT se resume a sensores e aplicações automáticas. O conceito é mais profundo: trata-se de ligar pessoas, objetos e decisões, permitindo que um destino “sinta” e reaja em tempo real.
As autoras sublinham que, na base do turismo inteligente, deve estar uma noção de governança digital partilhada, em que informação e responsabilidade circulam entre agentes públicos, privados e comunitários.
“A Internet das Coisas não é um fim em si, mas uma ponte entre dados e experiências humanas.” — Fernandes & Carvalho, 2025
No entanto, alertam para o perigo de uma inovação tecnocrática, que privilegie a automatização sem estratégia territorial. O desafio, escrevem, é articular tecnologia e propósito: garantir que cada sistema implementado responde a uma necessidade concreta — seja a gestão energética de um alojamento rural, a medição do impacto ambiental num parque natural, ou o apoio à mobilidade inclusiva em cidades históricas.
O caso português: potencial e contradições
O estudo reconhece o potencial de Portugal como laboratório de inovação turística, com ecossistemas de startups em Lisboa, Aveiro e nas regiões insulares, e programas de smart cities que já testam soluções em energia, mobilidade e cultura.
Mas também evidencia lacunas: fragmentação de plataformas, falta de interoperabilidade e de coordenação institucional, além de uma escassa integração entre as soluções IoT e políticas de sustentabilidade.
Portugal tem dado passos visíveis — de Sintra ao Porto, do Algarve à Madeira — mas, segundo as autoras, falta uma estratégia articulada que una os diferentes níveis da governação turística e tecnológica.
O país destaca-se pela criatividade e pela capacidade de execução técnica, mas ainda carece de mecanismos de partilha de dados e de indicadores comuns que permitam medir a eficácia das inovações no terreno.
Entre dados e ética: o lado invisível da inovação
A personalização e a recolha massiva de dados, defendem Fernandes e Carvalho, levantam novas questões éticas. A fronteira entre conveniência e invasão de privacidade é cada vez mais ténue, e a segurança dos dados turísticos — tanto dos visitantes como dos residentes — deve ser tratada como parte da sustentabilidade social.
A smartness de um destino mede-se, também, pela sua capacidade de proteger os cidadãos digitais, de garantir transparência e de traduzir algoritmos em valor humano.
As autoras apontam que o turismo inteligente será tanto mais bem-sucedido quanto mais conseguir integrar a literacia digital dos agentes locais, a formação de técnicos municipais e a participação das comunidades na gestão de dados e de soluções. Em suma, a tecnologia só é verdadeiramente inteligente quando não apaga a dimensão social do território.
De Faro para o mundo: um modelo replicável
O estudo, nascido no CinTurs — centro de investigação do Algarve que tem ganho expressão internacional —, propõe um modelo replicável de observação da inovação digital no turismo. A combinação entre bibliometria (para mapear o conhecimento) e benchmarking (para aferir práticas e resultados) oferece uma ferramenta poderosa para planear políticas, projetos e formação.
A abordagem pode ser aplicada, por exemplo, a áreas como património inteligente, gestão ambiental urbana, ou turismo sustentável baseado em dados abertos. Ao fornecer uma visão macro e comparativa, Fernandes e Carvalho mostram que a inteligência territorial é tanto uma questão de método como de infraestruturas.
O turismo que pensa e sente
Shaping Smart Tourism é mais do que um estudo técnico: é um convite a repensar o que significa “inteligência” no turismo. O que está em causa não é apenas a conectividade das coisas, mas a coerência entre tecnologia, cultura e sustentabilidade.
As autoras lembram que o futuro do turismo não se decidirá nos servidores, mas nas decisões humanas que escolhem o que medir, o que priorizar e o que preservar.
Portugal, com a sua dimensão manejável e a tradição de inovação na gestão turística, está bem posicionado para se tornar referência nesta nova geração de destinos digitais — desde que saiba fazer da tecnologia um instrumento de inteligência territorial e não um fetiche técnico.
Referência: Fernandes, S., & Carvalho, F. (2025). Shaping Smart Tourism: A Bibliometric and Benchmarking Analysis of IoT Trends. Tourism – An International Interdisciplinary Journal, 73(4), 771–798. Faculty of Economics and CinTurs — Research Centre for Tourism, Sustainability and Well-Being, Faro, Portugal.

Comentários
Enviar um comentário