Num momento em que a Europa procura políticas que respondam ao declínio económico das regiões rurais e à necessidade de desenvolvimento territorial sustentável, o estudo coletivo “Cultural and Creative Tourism in Rural and Remote Areas: European Perspectives”, coordenado por Greg Richards e um consórcio alargado de investigadores europeus, oferece uma revisão sistemática e narrativa da literatura que se tornou uma referência para quem trabalha a intersecção entre património, criatividade e desenvolvimento local. O artigo analisa 316 fontes em bases internacionais e acrescenta 467 textos em línguas europeias, alargando substancialmente a perspectiva continental.
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| Foto de Keith Mapeki na Unsplash |
O resultado é um diagnóstico rigoroso: o campo cresce rapidamente, mas existem lacunas teóricas e geográficas — e uma oportunidade clara para transformar ativos culturais e criativos em motores de regeneração económica e social, desde que se evitem modelos padronizados e se assuma a diversidade dos contextos rurais e remotos.
Uma agenda de temas: o que a literatura nos diz hoje
Os autores organizam a literatura em quatro eixos analíticos centrais: experienciar a ruralidade, pernoitar em lugares rurais, navegar a paisagem e desenvolver turismo. Estes temas emergem como matrizes que articulam recursos tangíveis (património arquitetónico, rotas, paisagens) e intangíveis (práticas, festas, conhecimentos locais). Gastronomia e eventos aparecem como elementos críticos das experiências rurais; igualmente, nota-se um forte aumento de estudos sobre património imaterial.
Paralelamente, o levantamento aponta para as franjas menos exploradas: as variações geográficas internas dos territórios rurais, as relações funcionais e simbólicas entre urbano e rural, o conceito de “remotismo” e, de modo transversal, a insuficiente atenção dada a temas como a governação e a sustentabilidade integrada. A digitalização também surge subrepresentada, apesar do seu impacto reconhecido em iniciativas recentes.
Este exercício de revisão distingue-se por dois aspectos metodológicos relevantes para práticos e investigadores: primeiro, a inclusão de literatura em línguas europeias que foge à hegemonia do inglês — um ganho para a precisão e para a diversidade de casos; segundo, a combinação de abordagens sistemáticas e narrativas que permite captar tanto padrões quantitativos como nuances contextuais. Os autores, não obstante, reconhecem limites — por exemplo, lacunas na cobertura francófona e germânica nas bases internacionais — e alertam para possíveis dificuldades de interpretação linguística.
Oportunidades para políticas públicas e para os agentes locais
A partir da revisão emergem lições concretas com aplicação direta ao planeamento e à promoção territorial:
- Valorizar o intangível — festividades, saberes artesanais, ofícios e práticas alimentares constituem experiências de alto valor simbólico; a sua sistematização em produtos turísticos exige proteção, capacitação e participação comunitária para evitar mercantilização.
- Desenho de produtos place-based — o estudo enfatiza a necessidade de estratégias enraizadas no lugar, que considerem ecologias locais e redes de atores (produtores, associações culturais, operadores turísticos). Modelos uni-dimensionais falham em contextos heterogéneos.
- Gastronomia e eventos como pivots — a literatura destaca o papel central da gastronomia e dos eventos locais como pontos de atração capazes de prolongar estadias e de distribuir benefícios económicos para cadeias curtas. Portugal tem exemplos maduros que podem ser ampliados e articulados com políticas de valor acrescentado.
- A digitalização como catalisador estratégico — apesar de pouco explorada na literatura revista, a digitalização mostrou o seu valor durante a pandemia e deve ser aprofundada: plataformas digitais, storytelling multimodal e marketing de proximidade podem amplificar a voz dos territórios sem sacrificar a autenticidade.
- Governação e sustentabilidade integradas — lacunas em governação e padrões de sustentabilidade aparecem com frequência. Para os autores, é essencial que políticas culturais, agrícolas, ambientais e turísticas se articulem para garantir resiliência e equidade.
Relevância directa para Portugal e propostas operacionais
Portugal aparece com destaque na revisão — especialmente no Sul e em projetos ligados ao turismo criativo e gastronómico — o que torna as lições europeias diretamente aplicáveis. Algumas propostas práticas:
- Inventário e mapeamento place-based: lançar um programa nacional para mapear recursos intangíveis por concelho (festas, ofícios, rotas alimentares), com base em equipas mistas (autarquias, universidades, associações culturais). (Com base na recomendação de investigação para place-based analysis).
- Laboratórios de co-criação: promover residências artísticas e oficinas criativas como incubadoras de produtos CCT que envolvam residentes e visitantes — modelo replicado com sucesso em vários estudos citados.
- Programas de capacitação: formação para produtores e guias locais sobre mediação cultural, storytelling e comercialização digital, para que o valor criado permaneça no território.
- Pilotos de turismo regenerativo: projetos pilotos em áreas de baixa densidade que combinem rotas gastronómicas, eventos de pequena escala e alojamento comunitário, avaliados com indicadores de impacto social e ambiental — respondendo à lacuna identificada sobre sustentabilidade e governança.
Principais conclusões (síntese)
- A investigação sobre CCT em áreas rurais e remotas está em forte crescimento, com contributos europeus muito relevantes; Portugal é actor central nessa produção académica.
- Gastronomia, eventos e património imaterial são os domínios mais explorados e com maior potencial de impacto económico e identitário.
- Existem lacunas críticas: variações espaciais internas, relação urbano-rural, remoteness meanings, digitalização e, acima de tudo, governação e sustentabilidade integradas.
- Futuras linhas de investigação e intervenção devem privilegiar análises place-based, estudos sobre motivações dos visitantes e modelos de negócio inovadores que mantenham valor no território.
Referência: Richards, G.; Adie, B. A.; Garibaldi, R.; Halkier, H.; Ivanov, S.; Ivanova, M.; James, L.; Lind, A. L.; Milfelner, B.; Mlakar, A.; Onderwater, L.; Palang, H.; Pozzi, A.; Raffay-Danyi, Á.; Rudan, E.; Saarinen, J.; Šegota, T.; Smolčić Jurdana, D.; Špoljarić, T.; Terziyska, I.; Turnšek, M.; Zadel, Z.; Zocchi, D. M. (2025). Cultural and Creative Tourism in Rural and Remote Areas: European Perspectives. Tourism — An International Interdisciplinary Journal, 73(4), 771–798.

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