Acessibilidade turística e co-design: quando a experiência partilhada transforma o turismo inclusivo
A acessibilidade no turismo não é só uma questão de rampas, sinalização ou normas técnicas. Quando se trata de experiências de viagem verdadeiramente inclusivas, a chave pode estar mais na forma como concebemos o turismo — participativo, colaborativo e co-desenhado com os próprios viajantes — do que na simples eliminação de barreiras físicas. É esta hipótese que sustenta o artigo “Sharing experiences of co-design for accessible tourism”, publicado na Annals of Tourism Research (2026), dos investigadores neozelandeses Alison McIntosh e Claire Flemmer, que defende uma mudança metodológica na investigação e na prática do turismo acessível: passar de modelos tradicionais de consulta nominal para processos de co-design ativo e experiencial.
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| Foto de Marcus Aurelius (link) |
Os autores situam a sua investigação num quadro em que a acessibilidade é compreendida como experiência de viagem integral, que se estende desde o planeamento até à vivência in situ. Em vez de considerar as pessoas com deficiência como simples destinatárias de serviços adaptados, o estudo propõe que estas comunidades contribuam diretamente para a criação das soluções, partilhando experiências, saberes e necessidades específicas que não emergem facilmente em pesquisas tradicionais. Esta abordagem encontra eco em abordagens metodológicas contemporâneas como o nothing about us without us, já explorado noutras investigações sobre co-design com pessoas com deficiência, que sublinham a necessidade de envolvimento profundo e autêntico de utilizadores com vivência experiencial nos próprios processos de investigação e conceção de políticas e produtos turísticos.
A investigação, conduzida com uma combinação de métodos qualitativos — incluindo entrevistas semi-estruturadas, workshops e atividades colaborativas de co-design — explora não apenas as necessidades de acesso a informação e recursos turísticos, mas sobretudo a dimensão relacional e comunitária da experiência turística acessível. Isso significa reconhecer que as pessoas com deficiência não apenas enfrentam barreiras no acesso à informação ou à mobilidade, mas que a sua participação ativa na criação de soluções pode potenciar uma sensação de agência, pertença e contributo social que transcende a simples adaptação estrutural.
Um dos contributos mais pertinentes do artigo é demonstrar que a partilha de experiência entre visitantes com deficiência se converte numa forma de capital social e cognitivo, capaz de suprir lacunas que as plataformas de turismo convencionais não conseguem preencher. Quando viajantes com deficiência partilham informação sobre rotas, serviços acessíveis, práticas de atendimento ou estratégias de navegação, estão a construir um ecossistema de conhecimento que funciona como suporte real à tomada de decisões — e que muitas vezes é mais relevante e fiável do que fontes institucionais generalistas.
Do ponto de vista teórico, esta perspectiva desagua numa crítica implícita ao modelo tradicional de turismo acessível, que tende a segmentar o mercado com base em categorias fixas de deficiência e a abordar a acessibilidade com soluções estandardizadas. Contrariamente, o estudo enfatiza que a acessibilidade não é apenas uma questão técnica ou regulamentar, mas um fenómeno vivido e negociado socialmente. Isto ressoa com abordagens recentes da literatura sobre turismo sustentável e inclusão, que consideram a acessibilidade como parte integrante dos processos de co-criação de valor experiencial, em que visitantes, comunidades e agentes de oferta participam de forma colaborativa.
Quando quem viaja ajuda a desenhar o turismo acessível
Do ponto de vista metodológico, o recurso ao co-design — tanto nos workshops como na análise dos dados — permite aos investigadores captar nuances e aspirações que escapam a abordagens puramente observacionais ou quantitativas. A experiência compartilhada por viajantes com deficiência revela, por exemplo, que muitas vezes os desafios não estão relacionados com a prática turística em si, mas com a ausência de informação acessível, relevante e adaptada ao contexto pessoal de cada viajante. A co-design torna-se assim uma ferramenta que vai além da cognição individual e fomenta relações de confiança e interdependência, promovendo ao mesmo tempo uma identidade comunitária fortalecida.
Este enquadramento tem ainda implicações diretas para a definição de políticas públicas e práticas de gestão turística. Se a acessibilidade é tanto um direito universal como um fator de competitividade sustentável, então a sua integração nos processos de planeamento deve ser sistémica, não residual. O estudo reforça que a acessibilidade não deve ser vista como um custo ou um complemento técnico, mas como um vetor de inovação social e económica que exige envolvimento ativo das comunidades de utilizadores desde a conceção até à execução. Isto dialoga com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, particularmente o ODS 10 (Redução das desigualdades) e o ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis), ao afirmar a importância de estruturas inclusivas no turismo global.
Em síntese, “Sharing experiences of co-design for accessible tourism” representa uma mudança de paradigma — de uma perspectiva onde as pessoas com deficiência são objetos de assistência, para uma abordagem em que são sujeitos ativos de criação de experiências turísticas inclusivas. Esta transição epistemológica e prática coloca desafios e oportunidades: por um lado, implica repensar instrumentos de investigação, oferta e gestão turística; por outro, abre espaço para modelos mais justos, reflexivos e centrados nas capacidades e nos contributos daqueles cuja experiência tem sido frequentemente marginalizada.
Principais conclusões:
- A acessibilidade turística não se resume a infraestruturas: é uma experiência vivida, moldada pela informação disponível, pelas interações sociais e pela previsibilidade do percurso turístico.
- Os processos de co-design com pessoas com deficiência produzem conhecimento mais profundo e operacional do que os modelos tradicionais de consulta, revelando necessidades invisíveis à investigação convencional.
- A participação ativa dos utilizadores reforça a autonomia, a agência e o sentido de pertença, transformando visitantes em co-criadores das experiências turísticas.
- A partilha de experiências entre pares funciona como um recurso crítico de informação fiável, complementando — e muitas vezes superando — as fontes institucionais.
- A acessibilidade não é homogénea: exige soluções flexíveis e adaptativas, sensíveis à diversidade de contextos, capacidades e trajetórias pessoais.
- O co-design contribui para mudanças estruturais nas organizações turísticas, promovendo culturas profissionais mais inclusivas e responsivas.
- Integrada de forma estratégica, a acessibilidade torna-se um fator de inovação social, sustentabilidade e competitividade dos destinos.
Referência: McIntosh, A., & Flemmer, C. (2026). Sharing experiences of co-design for accessible tourism. Annals of Tourism Research, 116, 104110. https://doi.org/10.1016/j.annals.2025.104110

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