Alojamento local e bem-estar urbano: o caso de Braga e os limites do crescimento turístico

O debate em torno do alojamento local de curta duração deixou há muito de ser apenas económico ou jurídico. No artigo “Como a operação de alojamentos locais de curto prazo influencia o bem-estar de cidades turísticas? O caso de Braga, Portugal”, publicado em finais de 2025 na Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo (RBTUR), uma equipa de investigadores brasileiros analisa esta realidade a partir de uma perspetiva raramente explorada em profundidade: os sentimentos e perceções dos residentes.

Foto de Filipe Nobre na Unsplash

Assinado por Manuela Bandeira de Melo Vidal, Rodrigo Ladeira e Sérgio Paulo Maravilhas Lopes, da Universidade Federal da Bahia (Salvador), o estudo centra-se na cidade de Braga, um dos destinos urbanos portugueses que mais intensamente sentiu a expansão do alojamento local na última década, cruzando turismo cultural, dinamismo universitário e pressão imobiliária crescente.

Uma abordagem centrada na comunidade

O estudo adota como enquadramento teórico a Lógica Dominante do Serviço, analisando o alojamento local enquanto fenómeno de cocriação e codestruição de valor. A investigação baseia-se em 27 entrevistas em profundidade a residentes de Braga, procurando compreender como estes avaliam os impactos do alojamento local no seu bem-estar individual e coletivo.

Como referem os autores, o objetivo não é medir indicadores económicos clássicos, mas captar dimensões subjetivas e sociais: “A investigação procura compreender os sentimentos dos residentes relativamente aos fatores de cocriação e codestruição de valor associados à operação de alojamentos turísticos locais de curto prazo” (Vidal et al., 2025).

Entre dinamização económica e tensão urbana

Os resultados mostram uma perceção ambivalente, marcada por ganhos claros, mas também por sinais de desgaste estrutural. Por um lado, muitos entrevistados reconhecem que o alojamento local contribuiu para a revitalização económica da cidade. “Os residentes", lemos no artigo, "associam o alojamento local ao aumento do movimento económico, à dinamização do comércio e à maior visibilidade turística de Braga”.

Esta leitura positiva liga-se sobretudo à criação de oportunidades económicas, ao aumento do fluxo de visitantes e à requalificação de áreas urbanas antes degradadas.

No entanto, o estudo identifica igualmente impactos negativos persistentes, que afetam diretamente o bem-estar comunitário. Entre os mais referidos estão a pressão sobre o mercado habitacional, o aumento do custo de vida, a perda de tranquilidade em zonas residenciais e a transformação do tecido social. “Os impactos negativos percebidos acendem um alerta sobre o futuro do negócio em Braga, uma vez que se repetem em cidades que já impuseram fortes restrições ao modelo”, sublinham os autores.

Cocriação ou codestruição de valor?

Um dos contributos mais relevantes do artigo estará na distinção clara entre situações de cocriação de valor, quando o alojamento local beneficia simultaneamente residentes, visitantes e cidade, e de codestruição de valor, quando os benefícios económicos são acompanhados por perdas sociais e simbólicas.

Os autores sublinham que o bem-estar comunitário aumenta quando o alojamento local:

  • gera benefícios económicos percebidos como distribuídos;
  • respeita a vivência quotidiana dos residentes;
  • se integra no tecido urbano sem descaracterização.

Em contrapartida, o bem-estar diminui quando o fenómeno é percecionado como desregulado ou excessivo, criando conflitos de uso do espaço urbano e sentimentos de exclusão.

Um aviso claro para destinos portugueses

Embora centrado em Braga, o estudo assume um valor exemplificativo para muitas cidades médias portuguesas, onde o crescimento do turismo urbano ocorre de forma acelerada, frequentemente sem mecanismos de monitorização social suficientemente robustos.

Os próprios autores alertam para a necessidade de ação preventiva: “A repetição destes impactos em diferentes contextos urbanos sugere a necessidade de políticas públicas capazes de equilibrar o desenvolvimento turístico com a preservação do bem-estar das comunidades anfitriãs”.

Principais conclusões:

  • O alojamento local pode contribuir positivamente para o bem-estar comunitário quando gera dinamização económica percebida como justa.
  • A pressão habitacional e a perda de qualidade de vida são os principais fatores de codestruição de valor identificados pelos residentes.
  • A perceção de desregulação do fenómeno fragiliza a aceitação social do turismo urbano.
  • O caso de Braga revela padrões semelhantes aos observados em cidades que mais tarde avançaram para políticas restritivas.
  • A gestão do alojamento local deve integrar dimensões sociais e emocionais, e não apenas indicadores económicos.


Referência: Vidal, M. B. M., Ladeira, R., & Lopes, S. P. M. (2025). Como a operação de alojamentos locais de curto prazo influencia o bem-estar de cidades turísticas? O caso de Braga, Portugal. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo (RBTUR), 19, e-3269.

Comentários