A sustentabilidade tornou-se um conceito omnipresente no discurso turístico, mas continua a colocar desafios quando transposta para a prática quotidiana dos produtores. O artigo “A Cross-National Analysis of Sustainable Wine Tourism From the Perspective of Wineries”, assinado por Gergely Szolnoki, Maximilian Tafel, Anne-Christin Stelter, Niklas Ridoff e Calle Nilsson, equipa da Universidade de Geisenheim (Alemanha) e do portal sueco Winetourism.com, propõe-se preencher uma lacuna persistente na investigação: compreender o enoturismo sustentável a partir do ponto de vista das adegas, enquanto atores centrais do sistema turístico vitivinícola.
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| Foto de Lucas Gallone na Unsplash |
Publicado já em 2026 no International Journal of Tourism Research, o estudo apresenta uma das mais amplas análises empíricas realizadas até à data sobre o tema, combinando métodos qualitativos e quantitativos e abrangendo 1579 adegas de 42 países, com foco comparativo em 11 países produtores, entre os quais Portugal.
A investigação assenta num desenho mixed-methods sequencial. Numa primeira fase, foram realizadas 24 entrevistas semiestruturadas a proprietários e gestores de adegas na Alemanha, Itália e Suíça, com o objetivo de identificar perceções, práticas e obstáculos relacionados com o enoturismo sustentável. Estes resultados alimentaram a construção de um inquérito online, aplicado posteriormente a 1579 adegas, das quais 1232 ofereciam efetivamente atividades de enoturismo.
Este desenho metodológico permite aos autores cruzar profundidade qualitativa com robustez estatística, oferecendo uma leitura rara sobre como a sustentabilidade é interpretada, operacionalizada e hierarquizada pelos produtores.
A sustentabilidade como valor consensual — mas não homogéneo
Um dos resultados mais claros do estudo é o elevado consenso em torno da importância da sustentabilidade. 93% das adegas inquiridas classificam-na como “importante” ou “muito importante”, com uma média global de 4,5 numa escala de 1 a 5. Portugal surge alinhado com esta média, registando igualmente 4,5, o que indica uma forte valorização estratégica do tema.
No entanto, quando se analisa o contributo específico do enoturismo para o desenvolvimento sustentável das adegas, o entusiasmo é mais moderado. A média global desce para 3,7, revelando que, embora reconhecido como relevante, o enoturismo ainda não é plenamente integrado como ferramenta central de sustentabilidade.
Como sintetizam os autores: “Wineries see wine tourism offerings as relevant for their sustainable business development; however, there is still room for improvement.”
Portugal apresenta aqui um valor médio de 3,6, abaixo de países como Estados Unidos (4,0), Itália e Espanha (3,9), mas acima de contextos onde o enoturismo tem menor expressão estruturante.
O que funciona melhor: medidas ambientais, económicas e sociais
O estudo analisa 22 medidas concretas, distribuídas pelos três pilares da sustentabilidade, permitindo identificar aquelas que os produtores consideram mais eficazes.
Na dimensão ambiental, a medida mais valorizada é a promoção da biodiversidade (46%), seguida do uso de produtos regionais (42%) e da gestão eficiente de energia e recursos (40%). Curiosamente, a redução da pegada de carbono surge entre as menos valorizadas (25%), apesar do peso das deslocações turísticas.
Na dimensão económica, destaca-se de forma clara o desenvolvimento de estratégias empresariais de longo prazo (54%), seguido da valorização do enoturismo como unidade de negócio rentável (52%) e da adoção de novas tecnologias (50%). A tradicional análise regular de lucros e perdas surge, de forma surpreendente, com apenas 14%, sugerindo uma visão mais estratégica do que contabilística da sustentabilidade.
Já na dimensão social, ganham relevo as relações laborais transparentes (46%), a cooperação regional (40%) e o cumprimento da legislação laboral e dos direitos humanos (38%). A satisfação do visitante, embora socialmente relevante, aparece associada também a objetivos económicos de fidelização.
Motivações e obstáculos: reputação sim, custos nem tanto
Entre os principais motores do enoturismo sustentável, sobressaem fatores reputacionais e relacionais. 57% das adegas referem a construção de confiança e reputação como principal motivação, seguidas pelo aumento da satisfação dos visitantes (55%) e pela convicção de que estas práticas “tornam o mundo um lugar melhor” (55%).
Em contraste, a redução de custos surge como motivação marginal (19%), reforçando a ideia de que a sustentabilidade é encarada mais como investimento estratégico e ético do que como mecanismo imediato de eficiência financeira.
Do lado das barreiras, o principal obstáculo identificado é a falta de recursos financeiros (48%), seguida da escassez de recursos humanos qualificados e de infraestruturas adequadas. A falta de interesse, frequentemente apontada na literatura, é praticamente irrelevante neste estudo (7%), sugerindo uma predisposição generalizada das adegas para avançar, caso existam condições estruturais.
Este artigo destaca-se não apenas pela escala, mas pela clareza com que demonstra que o enoturismo sustentável não é um conceito abstrato, mas um conjunto de decisões práticas, condicionadas por recursos, contexto territorial e visão estratégica. Para regiões como o Douro, Alentejo, Dão ou Bairrada, os resultados oferecem pistas concretas sobre prioridades de investimento, políticas de apoio e capacitação dos produtores.
Como concluem os autores: “Sustainability is widely valued, yet its integration into wine tourism remains context-dependent, shaped by both opportunities and systemic limitations.”
Referência: Szolnoki, G., Tafel, M., Stelter, A.-C., Ridoff, N., & Nilsson, C. (2026). A Cross-National Analysis of Sustainable Wine Tourism From the Perspective of Wineries. International Journal of Tourism Research, 28, e70169. https://doi.org/10.1002/jtr.70169

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