Turismo, bem-estar e sustentabilidade: quando o desenvolvimento deixa de ser apenas económico

Durante décadas, o sucesso turístico foi medido quase exclusivamente em chegadas, dormidas e receitas. O artigo “Tourism, Well-Being and Sustainability: Trends, Impacts and Perspectives”, publicado  já em 2026 na revista Sustainable Development, propõe uma mudança clara de paradigma: o turismo só pode ser considerado sustentável quando contribui, de forma mensurável e duradoura, para o bem-estar humano, tanto de visitantes como de residentes.

Foto de Elizeu Dias na Unsplash

Assinado por Raquel Ibar-Alonso | Ester Muñoz-Céspedes | María Dolores Sánchez-Sánchez, da Universidade Rey Juan Carlos (Madrid), o estudo apresenta uma análise abrangente da evolução conceptual e empírica da investigação internacional sobre a relação entre turismo, bem-estar e sustentabilidade, cruzando literatura académica recente com tendências emergentes nas políticas públicas e na gestão de destinos.

O ponto de partida do artigo é crítico: apesar da omnipresença do conceito de sustentabilidade no discurso turístico, os seus resultados concretos em termos de bem-estar permanecem ambíguos. Os autores sublinham que o turismo pode simultaneamente gerar benefícios económicos e provocar impactos negativos sobre a qualidade de vida, a coesão social e os ecossistemas locais.

Do crescimento turístico ao bem-estar territorial

Como refere o estudo, o bem-estar deve ser entendido de forma multidimensional, integrando componentes económicas, sociais, culturais, ambientais e psicológicas: “Tourism-related well-being goes beyond income generation and includes subjective perceptions of quality of life, social cohesion, cultural identity and environmental quality”.

Esta abordagem permite ultrapassar leituras simplistas e reconhecer que o mesmo fenómeno turístico pode produzir efeitos distintos consoante o contexto territorial, o modelo de governação e o grau de participação das comunidades locais.

O artigo identifica uma viragem clara na investigação científica recente, marcada por três grandes tendências:

  • a crescente integração de indicadores subjetivos de bem-estar, como satisfação com a vida, felicidade percebida e sentido de pertença;
  • a valorização do bem-estar dos residentes como critério central de avaliação da sustentabilidade dos destinos;
  • o reconhecimento do turismo como instrumento potencial de bem-estar coletivo, mas também como fator de stress social quando mal gerido.

Os autores sublinham que a investigação mais recente tende a abandonar modelos lineares de causa-efeito, adotando perspetivas sistémicas que reconhecem interdependências complexas entre turismo, economia local, ambiente e relações sociais.

Impactos positivos e riscos estruturais

O estudo não romantiza o turismo enquanto solução universal. Pelo contrário, evidencia que os impactos positivos no bem-estar dependem fortemente da escala, intensidade e modelo de desenvolvimento turístico. Destinos orientados para crescimento rápido e pouco regulado tendem a gerar conflitos sociais, pressão sobre recursos e erosão da qualidade de vida.

Nesse sentido, como alertam os autores, “without appropriate governance mechanisms, tourism development may undermine the very well-being it is expected to promote”. A sustentabilidade surge, assim, não como um atributo automático do turismo, mas como um processo político e social, que exige planeamento, monitorização e participação ativa das comunidades.

Implicações para políticas públicas e gestão de destinos

Um dos contributos mais relevantes do artigo reside na sua aplicabilidade prática. Os autores defendem que políticas de turismo sustentável devem integrar indicadores de bem-estar nos sistemas de avaliação de desempenho dos destinos, indo além dos tradicionais indicadores económicos. Entre as recomendações implícitas destacam-se:

  • a necessidade de alinhar estratégias turísticas com políticas de saúde, habitação, mobilidade e ambiente;
  • a importância de envolver residentes na definição dos limites aceitáveis do desenvolvimento turístico;
  • a urgência de adotar modelos de governação multinível, capazes de articular escalas local, regional e nacional.

Principais conclusões

  • O bem-estar humano deve ser considerado um objetivo central do turismo sustentável, e não um efeito colateral.
  • O turismo pode simultaneamente criar e destruir bem-estar, dependendo do modelo de desenvolvimento adotado.
  • A investigação recente aponta para abordagens mais integradas, que combinam indicadores objetivos e subjetivos.
  • A sustentabilidade turística exige governação ativa, participação comunitária e monitorização contínua dos impactos sociais.
  • Destinos que ignoram o bem-estar dos residentes comprometem a sua viabilidade a médio e longo prazo.


Referência: Ibar-Alonso, R. et al. (2026). Tourism, Well-Being and Sustainability: Trends, Impacts and Perspectives. Sustainable Development, Wiley.

Comentários