Regular ou não regular? O dilema da gestão de destinos perante a intensidade turística. O caso de Florença

Num contexto europeu marcado por debates cada vez mais polarizados em torno do overtourism, da gentrificação turística e da perda de qualidade de vida nos centros históricos, o artigo “To regulate or not to regulate: The destination management dilemma in handling the intensity of tourism”, publicado em janeiro de 2026 na revista Tourism Management, introduz evidência empírica robusta a um dos temas mais sensíveis da governação turística contemporânea: a eficácia real da regulação como instrumento de controlo da pressão turística.

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Da autoria de Rebecca Miccini, Camilla Ciappei e Giovanni Liberatore, das universidades de Pádua e Florença, o estudo centra-se na cidade de Florença, um dos destinos culturais mais visitados da Europa e Património Mundial da UNESCO, utilizando-a como laboratório urbano para testar uma hipótese central: a pressão regulatória reduz efetivamente a intensidade turística?

A literatura recente sobre turismo sustentável tem privilegiado indicadores de diagnóstico — capacidade de carga, densidade turística, perceções dos residentes — úteis para identificar situações de insustentabilidade, mas frequentemente limitados na sua tradução em instrumentos operacionais de política pública. É precisamente neste hiato que o artigo se posiciona.

Os autores argumentam que, perante a insuficiência de abordagens meramente monitorizadoras, muitos destinos urbanos têm recorrido a instrumentos regulatórios para gerir ativamente a intensidade turística: restrições ao alojamento local, limitação de atividades turísticas, regras comportamentais, planeamento urbano, fiscalidade e proteção do património cultural. No entanto, até agora, existia pouca evidência quantitativa sobre a eficácia combinada dessas medidas.

Metodologia mista e um novo conceito operacional: “pressão regulatória”

O estudo adota uma abordagem metodológica particularmente sólida, combinando análise qualitativa de políticas públicas com modelos econométricos de séries temporais.

Entre 2015 e 2022, os autores analisaram 248 documentos regulamentares municipais, dos quais 85 foram classificados como diretamente relacionados com o turismo. A partir desta análise, construíram um índice original de pressão regulatória turística, definido como a proporção mensal de regulamentos turísticos ativos face ao total de regulamentos em vigor.

Este índice é depois testado, através de regressões OLS com correções Newey–West, face a diferentes medidas de intensidade turística, controlando variáveis macroeconómicas como inflação, PIB local, taxas turísticas, preços da habitação e taxa de ocupação hoteleira.

Resultados claros: regular funciona — mas não de qualquer forma

Os resultados são inequívocos. Existe uma associação negativa e estatisticamente significativa entre pressão regulatória e intensidade turística: aumentos na regulação são seguidos, com um desfasamento de um a dois meses, por reduções na densidade de visitantes.

Mais relevante ainda é a distinção introduzida pelos autores entre dois tipos de regulação:

  • Regulação centrada no turismo (tourism-centered): medidas explicitamente dirigidas à atividade turística, como regras para alojamento local, limites a grupos organizados, bilhética temporizada ou códigos de conduta.
  • Regulação relacionada com o turismo (tourism-related): normas mais gerais de planeamento urbano, comércio, espaço público ou habitação, que afetam indiretamente o turismo.

A evidência empírica demonstra que as medidas diretamente orientadas para o turismo são substancialmente mais eficazes na redução da intensidade turística do que regulações genéricas. Entre 2015 e 2022, Florença passou de um equilíbrio relativo para uma clara predominância de regulação turística explícita, representando cerca de 80% das intervenções regulatórias nos anos mais recentes, num esforço deliberado para conter a recuperação acelerada do turismo pós-pandemia.

Impostos não bastam, inflação e ocupação explicam mais

Um dos resultados mais politicamente relevantes do estudo é a constatação de que as taxas turísticas não têm impacto estatisticamente significativo na intensidade do turismo. Em contraste, fatores como a inflação e a taxa de ocupação do alojamento surgem positivamente associados ao aumento da pressão turística.

Este resultado desafia narrativas simplificadoras que veem a fiscalidade como instrumento central de controlo do turismo e reforça a ideia de que a governação do turismo exige medidas estruturais, seletivas e integradas, e não apenas mecanismos de arrecadação de receita.

Principais conclusões

  • O artigo fornece contributos relevantes para a investigação e para a prática da gestão de destinos:
  • A regulação é um instrumento eficaz para reduzir a intensidade turística em destinos urbanos com elevada pressão.
  • Medidas centradas explicitamente no turismo são mais eficazes do que regulações genéricas de planeamento ou habitação.
  • A proliferação regulatória não é desejável: menos regulação, mas mais direcionada, produz melhores resultados.
  • As taxas turísticas, isoladamente, não reduzem a pressão turística, contrariando expectativas comuns.
  • A eficácia regulatória depende de capacidade institucional, monitorização contínua e governação adaptativa.
  • O conceito de pressão regulatória constitui uma ferramenta metodológica transferível para outros destinos.

Considerações críticas e relevância para o debate europeu

Embora o estudo se concentre num destino com características muito específicas — centro histórico compacto, forte identidade patrimonial e enquadramento UNESCO —, os autores sublinham que a metodologia pode ser replicada noutros contextos urbanos europeus sujeitos a processos de turistificação.

Para territórios como Lisboa, Barcelona, Veneza ou Dubrovnik, este artigo fornece um argumento empiricamente sustentado a favor de uma viragem regulatória estratégica, afastando-se tanto da inação política como de respostas simbólicas ou fiscalistas.

Mais do que perguntar se se deve regular, o estudo aponta para uma questão mais exigente: como, onde e com que foco regular o turismo.


Referência: Miccini, R., Ciappei, C. & Liberatore, G. (2026). To regulate or not to regulate: The destination management dilemma in handling the intensity of tourism. Tourism Management, 115, 105399. In: https://doi.org/10.1016/j.tourman.2026.105399

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