O turismo cria empregos, mas são empregos dignos? Um estudo do Politécnico de Leiria responde com dados

Um novo artigo publicado na revista Sustainability propõe um índice composto de sustentabilidade social para o turismo português e demonstra, com dados administrativos de doze anos, que o crescimento do emprego no sector não se traduziu em melhorias proporcionais na qualidade do trabalho. Baixos salários, contratos precários e desigualdades de género persistem como traços estruturais, mesmo nos anos de maior expansão turística.

Foto de Louis Hansel na Unsplash

O turismo é amiúde apresentado como motor de desenvolvimento inclusivo e de sustentabilidade social, precisamente pela sua capacidade de gerar emprego, absorver mão-de-obra com menores qualificações e dinamizar economias regionais. Em Portugal, esta narrativa tem sido particularmente influente na última década, período em que o sector registou um crescimento expressivo em volume de negócios, chegadas internacionais e número de trabalhadores. Mas criar empregos é o mesmo que criar trabalho decente? É esta a pergunta central que Eleonora Santos, investigadora do Centro de Investigação Aplicada em Gestão e Economia (CARME) da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Politécnico de Leiria, coloca e responde com rigor num artigo publicado em fevereiro de 2026 na revista Sustainability (MDPI).

O estudo desenvolve e aplica um Índice de Sustentabilidade Social no Turismo (Social Sustainability Index in Tourism, SSIT), construído a partir dos Quadros do Pessoal — a base de dados administrativa do Ministério do Trabalho que cobre o emprego formal em Portugal —, cobrindo o período entre 2010 e 2022. O enquadramento teórico ancora-se na Agenda para o Trabalho Digno da Organização Internacional do Trabalho (OIT), tratando o emprego de qualidade não como subproduto do crescimento turístico, mas como dimensão nuclear e mensurável da sustentabilidade social.

Um índice para o que ninguém mede sistematicamente

A originalidade metodológica do estudo reside precisamente nesta escolha: em vez de avaliar a sustentabilidade social do turismo através de percepções de residentes, impactos comunitários ou indicadores agregados de bem-estar — as abordagens mais comuns na literatura —, Santos centra a análise nas condições concretas de trabalho dos trabalhadores do sector. "Os trabalhadores, apesar de serem centrais para a criação de valor no turismo, são frequentemente tratados como atores secundários ou implícitos nos quadros de sustentabilidade social", escreve a autora, identificando aqui uma lacuna persistente na literatura.

O SSIT integra indicadores organizados em três dimensões analíticas: quantidade e estabilidade do emprego (prevalência de contratos permanentes versus a prazo, continuidade da força de trabalho); rendimento e condições de trabalho (salários reais, dispersão salarial, padrões de tempo de trabalho); e igualdade e segurança (diferencial salarial de género, composição por género, taxa de acidentes de trabalho). A construção do índice segue um protocolo transparente de normalização min-max, ponderação teoricamente informada e análise de sensibilidade com pesos alternativos, o que lhe confere replicabilidade e permite adaptação a outros contextos nacionais ou setoriais.

A autora é explícita quanto aos limites do instrumento: o SSIT captura apenas o emprego formal, deixando de fora o trabalho informal e não declarado, estimado como relevante no sector, e não abrange dimensões como voz dos trabalhadores, negociação coletiva ou bem-estar psicossocial, e agrega ao nível setorial sem desagregar por sub-setor ou região. "O índice deve ser interpretado como uma estimativa conservadora da sustentabilidade social baseada no emprego, e não como uma avaliação exaustiva das condições de trabalho no turismo."

Os números: crescimento sem qualidade

Os resultados empíricos são inequívocos. O emprego turístico cresceu de aproximadamente 230 mil trabalhadores em 2012 para cerca de 330 mil em 2022 — um aumento de 43%. Ao longo deste período, as mulheres representaram consistentemente uma ligeira maioria da força de trabalho (52-53%). Mas este crescimento expressivo em quantidade não foi acompanhado por melhorias correspondentes em qualidade.

O SSIT permanece estável no intervalo médio da escala durante todo o período, oscilando entre 0,49 e 0,57 numa escala de 0 a 1. A autora identifica três fases: uma relativa estagnação entre 2010 e 2014, marcada por dinâmicas salariais fracas e elevada precariedade contratual; uma modesta melhoria entre 2015 e 2019, associada ao crescimento do emprego e a incrementos salariais pontuais; e uma queda acentuada em 2020 por efeito da pandemia, seguida de recuperação parcial em 2021-2022, sem que os valores pós-pandémicos superem os anteriores à crise.

A estabilidade contratual constitui um dos pontos mais críticos. Os contratos permanentes representavam pouco mais de metade do emprego total — entre 52% e 57% — antes da pandemia, o que significa que o crescimento do emprego foi largamente absorvido por vínculos precários. "Em vez de representar um fenómeno transitório, a insegurança no emprego parece estruturalmente incorporada na organização dos mercados de trabalho no turismo", conclui a autora.

Na dimensão remuneratória, os salários no turismo mantiveram-se consistentemente abaixo da média nacional, com um diferencial estrutural de aproximadamente 25-30% ao longo de todo o período. Apesar do crescimento nominal dos salários, não se observa qualquer convergência com os níveis médios da economia. Esta lacuna salarial persistente, na leitura de Santos, "exerce uma pressão sistemática descendente sobre o desempenho global do SSIT" e fragiliza a segurança económica dos trabalhadores, como ficou exposto durante a pandemia.

Género: participação sem igualdade substantiva

O estudo revela uma tensão que a literatura já documenta mas que o SSIT permite quantificar longitudinalmente: as mulheres são maioritárias no emprego turístico, mas continuam a enfrentar desigualdades estruturais persistentes. O diferencial salarial de género reduziu-se gradualmente ao longo do período — de mais de 20% no início para cerca de 14% em 2021 —, uma evolução positiva que contribui para esta dimensão do índice. Porém, a desigualdade substantiva mantém-se: acesso desigual a contratos estáveis, concentração em funções de menor remuneração e limitadas oportunidades de progressão.

"Esta disjunção entre participação e igualdade substantiva corrobora a vasta literatura que documenta a feminização do trabalho no turismo a par de desigualdades estruturais persistentes", escreve a autora, sublinhando a importância de indicadores baseados em resultados — e não apenas em taxas de participação — quando se avalia a igualdade de género no sector.

A pandemia como teste de stress, não como ponto de viragem

Um dos contributos interpretativos mais relevantes do estudo é a leitura da crise pandémica. O SSIT regista em 2020 o valor mais baixo de todo o período (0,49), refletindo a quebra abrupta do emprego e o agravamento da insegurança laboral — especialmente entre os trabalhadores com contratos precários, que foram os mais expostos. A recuperação do emprego em 2021-2022 foi relativamente rápida, mas os valores do SSIT recuperaram apenas parcialmente e não superaram os níveis pré-crise.

Esta "recuperação assimétrica" — quantidade reposta, qualidade estagnada — é interpretada pela autora como evidência de que a pandemia não alterou estruturalmente o modelo de emprego no turismo, antes expôs e amplificou vulnerabilidades pré-existentes. "A pandemia funcionou como um teste de stress, não como um ponto de inflexão", sintetiza Santos, num diagnóstico que ecoa investigação comparada sobre outros mercados de trabalho turísticos europeus.

Implicações para a política e para a investigação

As implicações do estudo para o debate político são diretas. A Agenda para o Trabalho Digno introduzida em Portugal em 2023 — que visa reduzir a precariedade, promover a qualidade do emprego e reforçar a proteção laboral — encontra neste estudo um instrumento de monitorização empiricamente fundamentado. O SSIT permite identificar onde a agenda política falha em produzir resultados mensuráveis e em que dimensões do trabalho digno os défices são mais persistentes.

Mais amplamente, o estudo desafia a narrativa dominante que equipara crescimento turístico a desenvolvimento socialmente sustentável. "Criar empregos sem garantir a sua qualidade pode expandir o emprego enquanto simultaneamente reproduz pobreza no trabalho, insegurança e vulnerabilidade social", argumenta a autora, numa formulação que interpela diretamente os decisores de política turística e de emprego.

Para a investigação futura, o SSIT oferece uma base para análise comparativa internacional, desagregação regional e setorial, e integração de dimensões adicionais do trabalho digno à medida que a disponibilidade de dados melhore. A autora propõe também a sua articulação com abordagens qualitativas, institucionais e participativas — reconhecendo que nenhum índice administrativo consegue capturar a experiência vivida do trabalho no turismo na sua plena complexidade.


Referência: Santos, E. (2026). Decent work as a core dimension of social sustainability in tourism. Sustainability, 18, 2233. https://doi.org/10.3390/su18052233

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