Sustentabilidade turística nas Serras de Aire e Candeeiros: entre a boa vontade dos alojamentos e o silêncio do parque natural

Um estudo luso-romeno publicado no Journal of Urban and Regional Analysis revela que apenas um terço dos alojamentos turísticos do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros declara práticas de sustentabilidade — e que a relação entre os operadores e a administração do parque é marcada, nas palavras dos próprios entrevistados, por "nenhum contacto", "nenhuma colaboração" e "nenhuma comunicação".

Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (Alexey KomarovCreative Commons Attribution-ShareAlike 4.0 International)

O turismo em áreas protegidas de montanha cresceu significativamente na sequência da pandemia de COVID-19, que reorientou a procura para espaços naturais abertos e destinos de baixa densidade. Portugal não é excepção: a Estratégia Nacional de Turismo 2027 elegeu a "Natureza" como um dos dez eixos estratégicos, e o interesse pelo interior e pelas áreas classificadas tem crescido visivelmente. Mas entre a visão estratégica nacional e a realidade vivida pelos operadores turísticos no terreno, este estudo identifica uma distância preocupante.

A investigação, "Tourism sustainability and local governance challenges in a protected mountain area", é da autoria de Luís Santos (Instituto Politécnico de Tomar e Universidade de Coimbra) e de Ilinca-Valentina Stoica, Alexandra Cioclu, Ioan-Adrian Toma e Daniela Zamfir (todos da Universidade de Bucareste, Roménia), e foi publicada no segundo número de 2025 do Journal of Urban and Regional Analysis, no âmbito do projecto europeu HIGHLANDS.3, financiado pelo programa Marie Skłodowska-Curie. O território em análise é o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), uma área de cerca de 38.400 hectares no centro-oeste de Portugal, abrangendo sete municípios — Alcobaça, Porto de Mós, Alcanena, Rio Maior, Santarém, Torres Novas e Ourém —, e que em 2024 registou quase 50.000 visitantes, um número dez vezes superior ao de 2004.

Uma metodologia em quatro etapas

O estudo adoptou uma abordagem exploratória multifaseada, combinando análise de dados de plataformas digitais com investigação qualitativa de terreno. Numa primeira fase, os investigadores identificaram, através da Booking.com, todos os alojamentos turísticos localizados dentro dos limites administrativos do PNSAC - 30 unidades no total, das quais apenas 10 declaravam pelo menos uma prática de sustentabilidade. A Booking.com foi seleccionada em detrimento de outras plataformas (incluindo Airbnb, TripAdvisor e greenstays.pt) por oferecer o conjunto mais detalhado e estruturado de indicadores de sustentabilidade, organizados em cinco categorias: resíduos, água, energia e gases com efeito de estufa, destino e comunidade, e natureza.

Numa segunda fase, foi desenvolvido um modelo de pontuação integrado, com uma escala de 0 a 25 pontos, classificando os alojamentos como "insuficiente" (abaixo de 15), "adequado" (15 a 20) ou "óptimo" (acima de 20). A simplicidade do modelo foi uma opção deliberada: os autores privilegiaram a replicabilidade e a utilidade comunicativa sobre a sofisticação estatística, reconhecendo explicitamente o trade-off entre rigor académico e eficácia na comunicação pública — uma tensão recorrente na investigação sobre indicadores de sustentabilidade turística.

Numa terceira e quarta fases, foram realizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade com os responsáveis das 10 unidades que declaravam práticas de sustentabilidade, analisando as suas percepções sobre sustentabilidade, o seu percurso nessa matéria e, em particular, a relação com a administração do PNSAC.

Os números: um terço declara, 40% fica aquém

Os resultados quantitativos são reveladores. Apenas 33,3% dos alojamentos listados na Booking.com dentro do PNSAC declara qualquer prática de sustentabilidade - um valor que os autores consideram "surpreendentemente baixo", especialmente tratando-se de um território classificado. Das 10 unidades analisadas em detalhe, 40% foram classificadas como "insuficientes" e outras 40% como "óptimas", com as restantes numa posição intermédia. Nenhuma implementou a totalidade das práticas consideradas.

As medidas mais difundidas concentram-se nas categorias de água e resíduos - reciclagem, reutilização de toalhas, sanitas eficientes -, o que os autores interpretam com alguma reserva: muitas destas práticas coincidem com poupanças económicas directas, sendo difícil separar o compromisso ambiental da racionalidade empresarial. As práticas menos adoptadas pertencem às categorias de energia e gases com efeito de estufa (apenas um alojamento dispõe de carregador para veículos eléctricos; apenas três utilizam electricidade 100% renovável) e à dimensão comunitária (poucos investem em projectos locais ou promovem guias e negócios da região).

A limitação da plataforma é também reconhecida pelos próprios investigadores: a Booking.com não verifica as práticas declaradas, e os seus indicadores são genéricos, sem qualquer adaptação à especificidade de áreas naturais protegidas. "A questão que se coloca é se esta plataforma deveria reconhecer os alojamentos que operam dentro de áreas protegidas e implementar indicadores específicos que reflictam a sua contribuição para a preservação da natureza", escrevem os autores.

A voz dos operadores: entusiasmo próprio, abandono institucional

A componente qualitativa do estudo é, porventura, a mais rica em termos interpretativos. Os entrevistados revelam um perfil coerente: são pequenos empresários com genuína sensibilidade ambiental, muitos deles atraídos para o PNSAC precisamente pelo seu valor natural, e que construíram os seus projectos em torno de conceitos como "retiro", "refúgio" ou "serenidade". Vários recorrem a práticas tradicionais de sustentabilidade - como a recolha de água da chuva, descrita por um entrevistado como "o velho sistema ecológico que funcionava perfeitamente" -, e a uma economia local emergente de produtos e serviços de proximidade.

Mas é quando os investigadores questionam a relação com a administração do PNSAC que as respostas se tornam mais incisivas. "O parque não cria alternativas para aproximar as empresas do parque. É, na verdade, o contrário", afirma um dos entrevistados (caso 1). Outro descreve a administração como "inactiva" (caso 3), "calada" (caso 6) e "indiferente" (caso 2). Um terceiro recorda que antes da pandemia existiam reuniões ocasionais com os alojamentos - "talvez uma vez por ano" -, mas que desde então "não há qualquer apoio" (caso 6).

As nuvens de palavras construídas a partir das transcrições das entrevistas sintetizam graficamente este diagnóstico: do lado das deficiências, dominam expressões como "nenhuma colaboração", "nenhum contacto", "inactivo", "infraestrutura degradada", "trilhos destruídos pelos javalis", "sinais mal conservados"; do lado das sugestões, emergem termos como "manutenção", "promoção", "actividades", "colaboração", "apoio", "cooperar" e "informar".

Os operadores não reclamam apenas visibilidade ou marketing. Pedem orientação sobre regulamentação ambiental, apoio na gestão de incêndios e espécies invasoras, manutenção de trilhos e sinalética, e um papel de coordenação que só a entidade gestora do parque poderia desempenhar. "Deveria criar mecanismos para fazer as pessoas procurarem o parque natural", argumenta um dos entrevistados (caso 1). Outro vai mais longe: "não sabemos como contribuir para a conservação da natureza" (caso 2), uma confissão de boa vontade sem canais de expressão.

Uma lacuna de governança com consequências territoriais

O diagnóstico dos autores vai além da relação bilateral entre operadores e administração. O estudo identifica uma falha estrutural de governança: a Estratégia Nacional de Turismo 2027 e o Plano de Cogestão do PNSAC 2024-2027 preconizam o turismo sustentável e a colaboração com os stakeholders, mas esta visão não se traduz em práticas concretas de parceria no território. "Estar dentro de uma área protegida não garante aos stakeholders mais informação ou apoio em matéria de turismo sustentável do que em qualquer outra área", concluem os investigadores - uma conclusão que interpela diretamente o modelo de gestão das áreas classificadas em Portugal.

O estudo evoca o conceito de "naturbanização" para enquadrar o que está a acontecer no PNSAC e em parques naturais europeus comparáveis: o crescimento do turismo e a multiplicação de alojamentos como expressão de uma valorização crescente do espaço natural, com riscos de comodificação que exigem uma governança ativa e participada. A ausência desta governança não é neutra: deixa os operadores individualmente expostos, fragmenta a oferta territorial e impede a construção de uma identidade de destino coerente sob o chapéu do parque natural.

Os autores propõem medidas concretas: fóruns regulares de stakeholders, co-desenvolvimento de estratégias de marketing territorial, formação dos operadores sobre regulamentação ambiental, e parcerias legitimadas por objetivos partilhados entre conservação e desenvolvimento económico local. O instrumento de ranking que desenvolveram - replicável noutros contextos - é apresentado como um contributo operacional para monitorizar e comunicar o progresso das práticas de sustentabilidade, tanto aos turistas como aos próprios decisores.


Referência: Santos, L., Stoica, I.-V., Cioclu, A., Toma, I.-A., & Zamfir, D. (2025). Tourism sustainability and local governance challenges in a protected mountain area. *Journal of Urban and Regional Analysis*, *17*(2), 278–309. https://doi.org/10.37043/JURA.2025.17.2.6


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