As rotas turísticas multiplicaram-se nas últimas décadas. Rotas do vinho, caminhos de peregrinação, itinerários industriais, percursos culturais ou redes patrimoniais tornaram-se instrumentos centrais de desenvolvimento territorial, valorização patrimonial e cooperação entre atores públicos e privados. Mas porque é que algumas conseguem consolidar-se enquanto outras permanecem frágeis, dependentes de financiamento ou acabam por desaparecer?
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| Foto de Youcef Chenzer na Unsplash |
É essa a questão central do artigo “Critical success factors for tourism routes: insights from route characteristics”, publicado em maio de 2026 no Journal of Tourism and Cultural Change.
O estudo é assinado por André Pedrosa, Filomena Martins, Zélia Breda e António Pedro Costa (Universidade de Aveiro) e Rubén Lois González (Universidade de Santiago de Compostela) e a investigação parte de uma ideia central: as rotas turísticas não devem ser entendidas apenas como itinerários físicos ou produtos promocionais, mas como "redes organizadas de stakeholders" em torno de objetivos comuns: “Tourism routes, understood as formal stakeholder networks connected through shared products and objectives, have become central to destination development and heritage valorisation.”
Da rota linear à rede territorial
O artigo mostra como o conceito de rota turística evoluiu significativamente. Se inicialmente muitas rotas funcionavam sobretudo como percursos sinalizados ou mapas de atrações, hoje tendem a assumir formas mais complexas de governação colaborativa.
Os autores analisam cinco casos europeus bastante distintos:
- a Rota da Bairrada (Portugal),
- a Federação Europeia dos Caminhos de Santiago,
- a European Route of Industrial Heritage,
- a Asociación de Municipios del Camino de Santiago,
- e a Atlantic Salt Route .
A diversidade não é casual. O objetivo é perceber de que forma fatores como escala territorial, modelo organizacional, composição dos membros ou objetivos estratégicos influenciam o sucesso das rotas.
A metodologia assenta em 31 entrevistas semiestruturadas a atores institucionais, operadores turísticos, municípios, museus, adegas, associações e investigadores, complementadas por análise documental .
O sucesso depende menos do produto do que da governação
Uma das conclusões mais interessantes do estudo é que o produto turístico, por si só, não explica o sucesso de uma rota. O que se revela decisivo é a combinação entre estrutura organizacional, objetivos claros, capacidade de coordenação e continuidade institucional. “The findings show that structure, territory, and goals exert the strongest influence on CSF.”
Os autores utilizam o modelo dos "Critical Success Factors" (CSF), desenvolvido originalmente na gestão empresarial, para identificar as áreas críticas que condicionam o desempenho destas redes turísticas. A análise organiza-se em quatro dimensões principais:
- recursos;
- governação;
- atividades;
- avaliação de desempenho.
Entre os fatores mais relevantes surgem financiamento, liderança, confiança entre parceiros, clareza de objetivos, promoção conjunta, capacidade de trabalho e mecanismos de coordenação.
A investigação revela ainda diferenças importantes entre tipos de rotas. As rotas regionais e territoriais, como a Rota da Bairrada, atribuem maior importância às relações interpessoais, à confiança e à perceção mútua de benefícios. Já as grandes redes transnacionais tendem a enfrentar problemas distintos: comunicação, enquadramento legal e coordenação entre múltiplos países.
O problema recorrente da dependência pública
O financiamento emerge como um dos pontos mais críticos. Embora quase todas as rotas dependam de quotas dos membros, o setor público continua a desempenhar um papel dominante. “The development of tourism routes depends on the availability of public funding.”
Esta dependência levanta problemas de continuidade, sobretudo quando mudanças políticas alteram prioridades institucionais. O estudo sugere que as entidades públicas são particularmente vulneráveis a descontinuidades associadas a ciclos eleitorais, enquanto os operadores privados enfrentam sobretudo limitações estruturais e financeiras.
A questão da continuidade aparece repetidamente nas entrevistas. Em alguns casos, a sobrevivência das rotas depende fortemente de indivíduos específicos: líderes, técnicos ou coordenadores capazes de mobilizar parceiros e manter a rede ativa. Como sublinha o estudo, “People are fundamental and without them, I am sure the route would not have had the success it did.”
Cooperação: discurso consensual, prática difícil
Apesar de a cooperação surgir frequentemente como princípio fundador destas iniciativas, o artigo mostra que ela está longe de ser automática.
Nas rotas regionais, onde operadores competem diretamente entre si, a construção de confiança exige tempo e benefícios tangíveis. Nas redes transnacionais, pelo contrário, o problema tende a ser a dispersão e a dificuldade de alinhamento institucional.
O caso da Atlantic Salt Route é paradigmático. A iniciativa acabou por enfrentar dificuldades estruturais precisamente por ausência de envolvimento consistente de produtores e operadores locais. "I think it [TSAR] failed because there was no direct involvement from the producers themselves or, for example, from local tourism operators.”
O estudo desmonta, assim, uma visão frequentemente idealizada das rotas turísticas enquanto instrumentos naturalmente colaborativos. A cooperação exige governação, mediação e capacidade organizacional.
Branding, conhecimento e território
Outro aspeto relevante é a diferença de orientação estratégica entre rotas. Algumas privilegiam desenvolvimento territorial e projetos conjuntos; outras concentram-se em promoção e branding; outras ainda valorizam sobretudo networking e partilha de conhecimento.
No caso da Bairrada, por exemplo, o reforço da marca coletiva aparece como fator central: “We needed to have a single brand…”
Já noutras rotas, particularmente transnacionais, o intercâmbio de conhecimento e a visibilidade internacional assumem maior importância.
Os autores sublinham também que os mecanismos de avaliação permanecem frágeis. Muitas rotas continuam sem sistemas robustos de monitorização de impactos económicos, fluxos de visitantes ou retorno efetivo para os membros.
Principais conclusões
- O estudo conclui que o sucesso das rotas turísticas depende sobretudo da relação entre objetivos, estrutura organizacional e escala territorial.
- Rotas regionais valorizam mais relações interpessoais, confiança e reconhecimento do produto, enquanto redes transnacionais enfrentam maiores desafios legais e de coordenação.
- O financiamento público continua a ser decisivo, mas também gera vulnerabilidade e dependência.
- A existência de entidades coordenadoras fortes revela-se fundamental para garantir continuidade e alinhamento estratégico.
- Os autores demonstram ainda que muitas rotas continuam a carecer de mecanismos sólidos de avaliação de desempenho e impacto territorial.
Mais do que simples itinerários turísticos, as rotas revelam-se estruturas complexas de governação territorial. O seu sucesso depende menos da existência de património ou produtos diferenciadores do que da capacidade de construir redes colaborativas duradouras, coerentes e estrategicamente orientadas.
Referência : Pedrosa, A., Martins, F., Breda, Z., Lois González, R., & Costa, A. P. (2026). *Critical success factors for tourism routes: insights from route characteristics*. Journal of Tourism and Cultural Change. [https://doi.org/10.1080/14766825.2026.2669169]

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