A Bairrada, terra de vinhos espumantes e leitão assado, surge neste estudo académico como um caso exemplar de como a gastronomia regional pode ser instrumento de diplomacia cultural, promoção turística e desenvolvimento territorial. O artigo explora as redes, os atores e as estratégias digitais que compõem uma forma emergente de soft power: a gastrodiplomacia.
A gastronomia deixou de ser apenas um elemento identitário ou atrativo turístico para se tornar uma linguagem estratégica no palco das relações internacionais. A este fenómeno chama-se gastrodiplomacia: o uso deliberado da cultura alimentar como forma de promover uma imagem favorável de uma nação ou região, captar investimento, reforçar a coesão interna e atrair visitantes.
É neste quadro teórico que se inscreve o artigo “Gastronomia como Expressão Diplomática: Dinâmicas de Gastrodiplomacia na Região da Bairrada”, onde a investigadora Josefina Olivia Salvado examina como a região vitivinícola da Bairrada — situada entre o litoral e o interior centro de Portugal — pode mobilizar os seus recursos endógenos, as suas tradições culinárias e os seus atores institucionais e privados para reforçar a notoriedade da sua marca territorial.
A investigação articula uma revisão da literatura sobre gastrodiplomacia com uma análise empírica da presença online de oito municípios e 89 restaurantes da região. O objetivo foi duplo: por um lado, compreender como o território promove a sua identidade alimentar; por outro, mapear os principais agentes e mecanismos de difusão — desde entidades públicas a chefs, festivais, confrarias, redes sociais e simples cidadãos.
Entre os resultados mais relevantes, destaca-se a centralidade de dois ícones gastronómicos: o leitão assado da Bairrada e o vinho espumante produzido com a casta Baga. Estes produtos, que condensam saberes seculares, são não só bandeiras de identidade mas também instrumentos de diferenciação no mercado global, podendo ser mobilizados em ações de diplomacia cultural, promoção externa e turismo experiencial.
A análise dos sites municipais revelou 172 referências a produtos e pratos típicos, sendo Cantanhede, Águeda e Aveiro os concelhos com maior densidade de conteúdos. Além dos vinhos e do leitão, destacam-se pratos como chanfana, negalhos, sarrabulho, rojões, cabidela e doces conventuais como o morgado do Buçaco ou o arroz-doce. Esta diversidade reforça o potencial da Bairrada enquanto destino gastronómico com autenticidade e profundidade cultural.
Nos restaurantes, verificou-se que mais de 50% possuem presença ativa no Facebook e cerca de 60% disponibilizam ementas online — maioritariamente em português, mas algumas também em inglês. As ementas digitalizadas revelam uma predominância de pratos de carne (leitão e chanfana) e sobremesas regionais, mas também uma crescente preocupação com o design da experiência do visitante.
A autora propõe que a gastrodiplomacia na Bairrada pode e deve ser estruturada em várias frentes:
- Governança Pública (G2P) – envolvendo municípios, Turismo de Portugal, entidades certificadoras, escolas e universidades, em ações articuladas de branding, participação em feiras internacionais, promoção digital e eventos temáticos.
- Diplomacia Cultural P2P – protagonizada por restaurantes, chefs, confrarias, bloggers, redes sociais e festivais gastronómicos, num modelo de diplomacia “horizontal” e interpessoal, onde cada embaixador informal contribui para a projeção da região.
- Educação e Sustentabilidade – através de programas escolares, formações em enogastronomia, inclusão de práticas agroecológicas e envolvimento comunitário na valorização do património alimentar.
O estudo defende ainda que a articulação entre estratégias online e experiências offline é essencial para o sucesso da gastrodiplomacia: desde a otimização de websites até à realização de eventos culturais, passando por colaborações internacionais, workshops culinários, ações de educação alimentar e práticas sustentáveis no setor vitivinícola.
Embora centrado na Bairrada, o modelo proposto é aplicável a outras regiões com tradição alimentar e vínica em Portugal. Como afirma a autora, “os produtos gastronómicos são símbolos culturais com poder de mobilização, identidade e reputação — são pontes entre povos, não apenas pratos à mesa”.
Principais conclusões
- A Bairrada possui um elevado potencial para desenvolver estratégias eficazes de gastrodiplomacia, combinando tradição alimentar, identidade territorial e capacidades institucionais.
- O leitão assado e o espumante de Baga são ícones gastronómicos com forte capacidade de comunicação simbólica e de internacionalização da marca regional.
- Os municípios, restaurantes e atores privados desempenham papéis complementares na construção de uma imagem coerente e atrativa do território.
- A presença online é relevante, mas ainda desigual; há margem para reforçar a internacionalização digital e a narrativa visual dos produtos regionais.
- O sucesso da gastrodiplomacia depende da articulação entre agentes públicos e privados, e da integração entre estratégias digitais, eventos culturais, práticas educativas e iniciativas sustentáveis.
- A Bairrada pode posicionar-se como laboratório de boas práticas em diplomacia cultural gastronómica, contribuindo para a reputação de Portugal como destino enogastronómico de excelência.
Referência: Salvado, J. O. (2025). Gastronomia como Expressão Diplomática: Dinâmicas de Gastrodiplomacia na Região da Bairrada. DIAITA: Food & Heritage, Imprensa da Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.14195/2976-0232_2

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