Apesar da importância económica, patrimonial e cultural do azeite português, o olivoturismo continua a ser um produto emergente e pouco estruturado no panorama turístico nacional. Estudo recente da investigadora Lúcia Pato, do Instituto Politécnico de Viseu e da unidade CERNAS-IPV, lança um olhar abrangente sobre a oferta atual de olivoturismo nas principais regiões DOP de Portugal, revelando potencialidades por explorar, assimetrias regionais e fragilidades que carecem de respostas articuladas.
O azeite é, desde há muito, mais do que um simples ingrediente da culinária portuguesa. É símbolo identitário, bem cultural, produto agrícola estratégico e elemento central da dieta mediterrânica – classificada pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2013. Com base neste capital simbólico e económico, o olivoturismo emerge como uma modalidade de turismo rural que conjuga experiências ligadas à produção e degustação de azeite com a visita a olivais, lagares, museus, festivais e percursos temáticos.
No artigo “Olivoturismo em Portugal: Uma visão geral da oferta existente pelas principais regiões produtoras”, publicado recentemente na edição especial n.º 18 da revista Millenium, Lúcia Pato apresenta um mapeamento rigoroso e inédito da atual oferta turística relacionada com o azeite, nas seis regiões portuguesas com Denominação de Origem Protegida (DOP): Trás-os-Montes, Beira Interior, Ribatejo, Norte Alentejano, Alentejo Interior e Moura.
Partindo de uma análise documental e empírica baseada em fontes institucionais, websites municipais e pesquisa web, a autora identificou um total de 165 recursos turísticos associados ao olivoturismo, entre feiras, unidades de alojamento com experiências, lagares visitáveis, museus e rotas organizadas. Esta análise permitiu concluir que o desenvolvimento do olivoturismo é desigual e incipiente, apesar do seu potencial como instrumento de desenvolvimento rural, valorização territorial e diversificação da oferta turística portuguesa.
A região da Beira Interior destaca-se como o território mais dinâmico neste domínio, concentrando 48 recursos turísticos identificados, incluindo duas rotas do azeite formalmente estruturadas – uma gerida pela CIM Beiras e Serra da Estrela, e outra pela CIM Beira Baixa. Aqui, é possível encontrar museus do azeite, alojamentos com experiências sensoriais, visitas a lagares tradicionais e iniciativas de promoção articuladas. Em contraste, as regiões do Alentejo, embora líderes nacionais na produção de azeite, apresentam ainda uma oferta turística modesta e desarticulada: escasseiam museus, eventos e rotas formalizadas, sendo o esforço de promoção mais dependente de iniciativas privadas.
Outro dado interessante é a preponderância de experiências turísticas em unidades de alojamento (44), mais do que eventos organizados (40), e a escassa presença de museus e centros interpretativos (19), o que evidencia uma lacuna no investimento público na educação e valorização patrimonial da cultura do azeite.
Além disso, o estudo revela ausência de uma marca nacional de olivoturismo, bem como a inexistência de uma associação setorial que congregue produtores, operadores turísticos, entidades públicas e académicos em torno de objetivos comuns. Para Lúcia Pato, esta desarticulação tem impedido a consolidação do olivoturismo como “tipo particular de turismo rural com forte ligação ao património agrícola, cultural e gastronómico português” e sugere a criação de uma estratégia nacional, inspirada no modelo já consolidado do enoturismo.
Como sublinha a autora, “Portugal tem todas as condições para se afirmar neste segmento: tradição secular, produtos certificados com reconhecimento internacional, paisagens agrícolas autênticas e uma gastronomia que valoriza o azeite como o seu ‘ouro líquido’”.
Principais conclusões
- O olivoturismo em Portugal encontra-se ainda numa fase embrionária, apesar do potencial de valorização económica, cultural e turística do azeite.
- A oferta é assimétrica, com maior dinamismo na Beira Interior e Trás-os-Montes, e menor desenvolvimento nas regiões alentejanas, apesar da sua liderança produtiva.
- As unidades de alojamento têm desempenhado um papel relevante na dinamização do produto, mas falta investimento em museus, centros interpretativos e rotas formalizadas.
- A ausência de coordenação entre atores públicos e privados e a inexistência de uma estratégia nacional são fragilidades centrais do setor.
- O estudo recomenda a criação de uma marca nacional de olivoturismo e de uma associação representativa, bem como maior integração com outras formas de turismo (gastronómico, cultural, bem-estar).
- O olivoturismo deve ser encarado como uma ferramenta para o desenvolvimento rural e a preservação do património agrícola e paisagístico português.
Referência: Pato, L. (2025). Olivoturismo em Portugal: Uma visão geral da oferta existente pelas principais regiões produtoras. Millenium - Journal of Education, Technologies, and Health, 2(ed. espec. nº18), e37825. https://doi.org/10.29352/mill0218e.37825

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