A gastronomia é cada vez mais entendida como recurso estratégico do turismo cultural e identitário. Mas como olham os próprios residentes para as suas tradições culinárias? Um estudo recente — Percepções dos Residentes do Norte de Portugal sobre a Gastronomia Tradicional com uma Análise Q Generalizada, assinado por Filipe Joaquim da Costa Moreira, Isabel Maria Pereira Correia e Fernando Manuel Ferreira Rodrigues, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Instituto Politécnico do Porto — procurou responder a essa questão, combinando uma abordagem quantitativa com técnicas qualitativas de análise Q.
O estudo sublinha que, no Norte de Portugal, “a gastronomia constitui não apenas um elemento de atratividade turística, mas também uma dimensão identitária, que estrutura as memórias e os afetos coletivos” (Moreira et al., 2025, p. 134).
Mais do que um produto de consumo, os pratos típicos — do bacalhau às postas de vitela, do vinho verde ao pão de centeio — são vistos como marcas vivas de autenticidade. Cada receita remete para histórias locais, práticas agrícolas, sazonalidades e festividades, funcionando como elo entre o passado e o presente.
Os autores insistem que a gastronomia é, ao mesmo tempo, recurso económico e cultural: “trata-se de um património que diferencia o destino, reforça a competitividade e pode ser motor de desenvolvimento sustentável, desde que os residentes o reconheçam como seu” (p. 136).
A metodologia Q
O estudo aplicou a análise Q generalizada, técnica que permite mapear diferentes padrões de opinião em torno de um mesmo tema. A partir de um conjunto de afirmações sobre a gastronomia tradicional, os participantes foram convidados a posicionar-se de forma comparativa, revelando visões, prioridades e até tensões.
Este método permitiu identificar clusters de perceções entre os residentes, indo além da estatística descritiva: mais do que saber se concordam ou discordam, trata-se de perceber como estruturam o seu pensamento coletivo sobre a gastronomia.
Resultados: entre orgulho, o mercado e a convivialidade
A análise Q permitiu identificar três grandes padrões de perceção entre os residentes.
Um primeiro grupo interpreta a gastronomia como expressão de autenticidade cultural, defendendo que deve ser preservada tal como foi transmitida. Para estes participantes, “a gastronomia tradicional é símbolo da nossa identidade e deve ser protegida da descaracterização” (p. 138). O receio é que a pressão turística leve à banalização ou à perda de genuinidade.
Um segundo grupo enfatiza o potencial económico da gastronomia, vendo-a como recurso estratégico para atrair visitantes e gerar rendimento. Como afirmam alguns dos entrevistados, “a gastronomia é um cartão de visita do território e precisa de ser promovida como produto turístico competitivo” (p. 139). Aqui, a preocupação é mais pragmática: adaptar a oferta às novas tendências, sem perder qualidade, para responder à procura global.
Por fim, há um terceiro grupo que associa a gastronomia sobretudo à convivialidade e à coesão comunitária. São residentes que veem a mesa como espaço de encontro, sociabilidade e celebração. “A gastronomia une famílias e vizinhos, sendo mais do que comida: é tradição, festa e partilha” (p. 140).
Estas perspetivas revelam que o património alimentar não é apenas tradição, mas também campo de negociação entre preservação e inovação.
Implicações para turismo e políticas públicas
O estudo conclui que compreender estas perceções é essencial para definir políticas de turismo gastronómico que não alienem as comunidades. “Sem a participação ativa dos residentes, qualquer estratégia de promoção corre o risco de perder autenticidade e de ser rejeitada localmente” (p. 141).
Para os autores, as autarquias e entidades de turismo devem investir em programas que conciliem a preservação da autenticidade com a adaptação às exigências do mercado, garantindo que o valor gerado pelo turismo gastronómico beneficia a comunidade. Isso implica, por exemplo, apoiar pequenos produtores, proteger receitas e saberes tradicionais, incentivar eventos locais que mantenham o espírito comunitário e criar narrativas de marketing que reflitam a identidade real do território.
Além disso, é fundamental que a gastronomia seja integrada em estratégias mais amplas de desenvolvimento rural e cultural. Como escrevem os investigadores, “a gastronomia pode ser catalisador de orgulho identitário e motor de coesão social, desde que não seja reduzida a mero produto de consumo” (p. 142).
Principais conclusões
- A gastronomia tradicional é valorizada pelos residentes do Norte de Portugal como recurso cultural, económico e social.
- As perceções distribuem-se em três grandes eixos: autenticidade patrimonial, potencial económico e convivialidade comunitária.
- A análise Q permitiu captar as nuances destas posições, indo além de opiniões individuais dispersas.
- O estudo recomenda maior envolvimento comunitário na definição de políticas de turismo gastronómico, para garantir autenticidade e sustentabilidade.
Referência: Moreira, F. J. C., Correia, I. M. P., & Rodrigues, F. M. F. (2025). Percepções dos Residentes do Norte de Portugal sobre a Gastronomia Tradicional com uma Análise Q Generalizada. Revista Portuguesa de Estudos Regionais, 34(1), 131–149. https://doi.org/10.59072/rper.vi72.743

Comentários
Enviar um comentário