Um estudo internacional recente demonstra que a ligação entre produtos vínicos e gastronómicos sustentáveis pode ser a chave para consolidar o turismo enogastronómico enquanto motor de desenvolvimento territorial. Assinado por Filipe Santos, da Universidade de Aveiro, em coautoria com investigadores da Alemanha, Suíça, Itália, Espanha, Bolívia, Índia e Peru, o artigo Sustainable wine and food products as precursors of sustainable wine tourism: a qualitative cross-national analysis (2025) propõe um modelo conceptual robusto que relaciona práticas agrícolas, gastronomia e turismo sustentável, apontando caminhos para produtores, decisores e comunidades.
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| Foto de Maria das Dores na Unsplash |
O estudo parte de uma premissa aparentemente simples: a gastronomia é mais do que o complemento de uma experiência vínica; é um fator estratégico para a sustentabilidade de destinos turísticos.
Na análise dos investigadores, a gastronomia sustentável resulta de uma “filosofia benigna”, baseada em cadeias curtas de abastecimento, valorização de produtos locais e integração de práticas amigas do ambiente. Como se lê no artigo: “the sustainable local wine–food linkages dimension stresses the future potential and impacts of sustainable food practices, for instance, to enhance the destination image through the attractiveness of local food production and preparation” (Santos et al., 2025, p. 11).
A mensagem é clara: pratos e vinhos de origem local, produzidos com critérios de sustentabilidade, não apenas reforçam a autenticidade da experiência como constroem a imagem diferenciadora do destino.
A investigação baseou-se em entrevistas qualitativas realizadas em oito países — Alemanha, Suíça, Itália, Portugal, Espanha, Bolívia, Índia e Peru —, cobrindo assim tanto regiões vitivinícolas tradicionais da Europa como realidades emergentes do hemisfério sul e da Ásia.
No total, foram identificadas 15 dimensões conceptuais que estruturam a relação entre sustentabilidade, vinho e gastronomia, desde a produção agrícola e gestão de recursos naturais até à educação do consumidor e ao marketing territorial. Esta amplitude permitiu desenhar um modelo conceptual integrador que se ancora em três quadros teóricos: a responsabilidade social corporativa (CSR), a teoria dos stakeholders e a sustentabilidade corporativa.
O que distingue cada região
Um dos contributos mais relevantes do estudo está na identificação de diferenças regionais no modo como a sustentabilidade é entendida e praticada.
“Southern European countries emphasize the organic dimension of wine production, Central European respondents highlight the reduction of chemicals and waste, while emerging economies such as Bolivia, Peru and India focus on the natural management of vineyards and water resources. Sustainability is thus understood and enacted differently according to regional contexts.”
Europa do Sul (Portugal, Espanha, Itália): maior valorização da produção orgânica e da ligação entre gastronomia e património cultural. Aqui, a sustentabilidade é vista como forma de salvaguardar tradições e reforçar a autenticidade.
Europa Central (Alemanha, Suíça): destaque para a redução do uso de químicos, da água e do desperdício, refletindo uma mentalidade mais orientada para a eficiência e inovação tecnológica.
Países emergentes (Bolívia, Peru, Índia): prioridade à gestão natural das vinhas e à adaptação às condições ambientais, como a escassez de água. A sustentabilidade é aqui encarada como questão de sobrevivência ecológica e competitividade.
Estas diferenças mostram que não existe uma definição única de sustentabilidade, mas sim traduções locais do conceito, em função dos recursos disponíveis, da cultura e do mercado.
Gastronomia e turismo: uma relação em construção
O estudo revela que menos de 40% das adegas analisadas tinham restaurante próprio, mas a integração da gastronomia nos projetos enoturísticos cresce de forma consistente. Os visitantes valorizam fortemente a autenticidade e a qualidade dos produtos, associando-os à experiência turística. Como afirma um entrevistado espanhol, “visitors greatly value the authenticity and quality of organic products … taste is a magnet for them” (Santos et al., 2025, p. 14).
“Only through collaborative networks and shared governance will sustainable practices in wine and gastronomy be transformed into long-term competitive advantage. Public policies and regional strategies are essential to align stakeholders and guarantee that benefits are distributed locally.”
A gastronomia é também entendida como ferramenta educativa. Provas comentadas, experiências culinárias e visitas guiadas às cozinhas de adegas permitem explicar ao visitante os princípios da sustentabilidade. Esta dimensão pedagógica aproxima produtores e consumidores, gerando confiança e estimulando escolhas mais responsáveis.
Implicações para os territórios
Do ponto de vista territorial, a investigação mostra que o enoturismo sustentável não pode ser visto apenas como estratégia de marketing. Está em causa uma aliança de redes locais, envolvendo produtores, restaurantes, artesãos e instituições públicas.
Ao articular vinho e gastronomia, os territórios:
- reforçam a marca regional;
- criam efeito multiplicador económico (benefícios para agricultores, distribuidores e prestadores de serviços locais);
- valorizam a identidade cultural e reforçam o orgulho comunitário;
- atraem visitantes de perfil mais consciente e predisposto a gastar em experiências diferenciadas.
Para os autores, este é o caminho para construir destinos resilientes: “só através de redes colaborativas e de uma governação partilhada será possível transformar práticas sustentáveis em vantagem competitiva de longo prazo” (p. 16).
Para Portugal, país onde o vinho e a gastronomia são marcas identitárias fortes, o estudo confirma que a aposta na sustentabilidade é também uma aposta estratégica. Regiões como o Douro, o Alentejo ou o Dão têm já experiências relevantes em viticultura biológica e em restauração com produtos locais. Integrar estas práticas em narrativas consistentes pode não apenas diferenciar os destinos portugueses no mercado internacional, mas também gerar benefícios para as comunidades de baixa densidade, onde o enoturismo pode fixar população e criar emprego.
Principais conclusões
- A gastronomia sustentável é motor de diferenciação e não mero complemento do enoturismo.
- Os visitantes valorizam autenticidade, produtos orgânicos e experiências educativas.
- Há diferenças regionais claras: o Sul da Europa valoriza o orgânico; o Centro da Europa aposta na eficiência; países emergentes focam-se na gestão ecológica de recursos.
- Menos de 40% das adegas possuem restaurantes, mas a integração da gastronomia nas experiências turísticas está em expansão.
- A sustentabilidade no enoturismo depende de redes colaborativas e de políticas públicas que assegurem coerência e impacto local.
Referência: Santos, F., et al. (2025). Sustainable wine and food products as precursors of sustainable wine tourism: a qualitative cross-national analysis. Journal of Sustainable Tourism. https://doi.org/10.1080/13683500.2025.2563045

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