A gastronomia como narrativa identitária e económica
O ponto de partida de Martins-Rodal e Patiño Romarís é claro: a gastronomia é um elemento estruturante da identidade territorial e, ao mesmo tempo, um ativo económico fundamental para o desenvolvimento sustentável das regiões.
No caso galego, esta dupla dimensão é particularmente evidente. A Galiza apresenta um património culinário profundamente enraizado no mar e na terra, com cinco denominações de origem vinícolas (Rías Baixas, Ribeiro, Monterrei, Ribeira Sacra e Valdeorras), centenas de feiras e festivais gastronómicos, e uma cadeia de valor que liga a agricultura, a pesca artesanal, o turismo rural e a restauração.
Como escrevem os autores, “a gastronomia não é apenas um atrativo turístico, mas um marcador simbólico da paisagem e um fator de coesão cultural que reforça o sentimento de pertença e a perceção de autenticidade” (Martins-Rodal & Patiño Romarís, 2025, p. 2).
A investigação parte da convicção de que o turismo gastronómico, se bem planeado, pode atuar como vetor de sustentabilidade, contribuindo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), nomeadamente o ODS 8 (Trabalho digno e crescimento económico), o ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis) e o ODS 12 (Consumo e produção responsáveis).
A metodologia: ler o território a partir dos dados
Em vez de recorrer a inquéritos presenciais ou análises de satisfação, Martins-Rodal e Patiño Romarís recorreram ao Google Trends, uma ferramenta gratuita que mede a frequência das pesquisas online, para mapear o interesse global em produtos gastronómicos galegos — desde o pulpo (polvo) e a empanada até aos percebes e ao vinho Albariño.
A escolha da metodologia não é apenas técnica, é simbólica: os autores assumem o digital como espelho das representações culturais contemporâneas. O que as pessoas pesquisam revela o que desejam, o que valorizam e, em certa medida, o que idealizam sobre um destino.
“A digitalização da procura permite compreender a gastronomia não apenas como produto turístico, mas como discurso simbólico global, refletido nos comportamentos digitais dos potenciais visitantes.” (p. 3)
O estudo analisou dados entre 2013 e 2025, observando as variações de interesse, a sazonalidade e as tendências por país. O resultado é um retrato quantitativo e culturalmente expressivo da reputação digital da gastronomia galega.
Principais resultados: entre tradição e modernidade
A análise das tendências revelou três padrões essenciais:
- Predomínio dos produtos marinhos, especialmente o polvo, como símbolo culinário da Galiza — em linha com o imaginário marítimo e as raízes culturais da região.
- Sazonalidade acentuada, com picos de procura durante o verão (época alta) e no período natalício, quando as festas locais e o retorno dos emigrantes aumentam o interesse por produtos tradicionais.
- Declínio geral das pesquisas entre 2020 e 2025, interpretado pelos autores como reflexo das mudanças pós-pandemia no comportamento do turista, mais atento à sustentabilidade e menos dependente de estereótipos gastronómicos.
A exceção a esta tendência é o vinho Albariño, cuja procura se mantém constante — ou mesmo crescente — durante a época estival. Este produto, associado à Rota do Vinho das Rías Baixas, tornou-se emblema digital da autenticidade galega, ao combinar tradição, qualidade e visibilidade internacional.
“O Albariño consolidou-se como símbolo de modernidade e autenticidade, conjugando o imaginário rural com o posicionamento premium de uma região que soube reinventar o seu património enológico.” (p. 6)
Gastronomia e marketing digital: um novo ecossistema territorial
Para Martins-Rodal e Patiño Romarís, a gastronomia deixou de ser apenas uma experiência presencial: é hoje uma narrativa multimodal, construída entre o território físico e o espaço digital.
Através de plataformas como turismo.gal, campanhas de promoção em redes sociais e conteúdos audiovisuais produzidos por influencers, a Galiza projetou uma imagem de destino autêntico e sustentável, ancorado em valores locais, mas comunicável globalmente.
O estudo identifica o emergente modelo de “turismo gastronómico inteligente”, onde dados, tecnologia e cultura se cruzam. “O futuro do marketing territorial depende da integração da informação digital em políticas públicas que assegurem coerência entre imagem e experiência, comunicação e autenticidade” (p. 8).
A digitalização permite, além disso, corrigir a sazonalidade, dispersar fluxos e redistribuir benefícios. Campanhas segmentadas podem, por exemplo, promover produtos agrícolas ou festas gastronómicas de inverno, criando uma ocupação turística mais equilibrada e sustentável.
O impacto do estudo: lições para Portugal
A investigação tem relevância direta para Portugal, que partilha com a Galiza afinidades culturais, paisagísticas e económicas. Tal como no caso galego, a gastronomia portuguesa — do bacalhau à lampreia, dos vinhos do Douro ao queijo da Serra — constitui um ativo identitário e emocional de enorme valor estratégico.
A metodologia do estudo oferece uma ferramenta poderosa: usar os dados digitais para medir o impacto simbólico e económico da gastronomia portuguesa nas decisões turísticas. Aplicada ao contexto nacional, esta abordagem permitiria:
- Mapear a reputação digital dos principais produtos e destinos gastronómicos;
- Avaliar a eficácia das campanhas promocionais;
- Identificar novas tendências de procura (como veganismo, enoturismo ou gastronomia sustentável);
- e apoiar políticas públicas mais informadas, baseadas em evidência digital.
Assim, o exemplo galego demonstra que a convergência entre gastronomia e ciência de dados é uma das vias mais promissoras para o turismo sustentável do futuro.
Conclusão: do prato à nuvem, o turismo em transformação
O estudo de Martins-Rodal e Patiño Romarís coloca a Galiza na vanguarda do turismo baseado em dados (data-driven tourism), revelando que as preferências digitais são também expressões culturais e afetivas.
Mais do que medir a popularidade de um prato, trata-se de compreender o que o visitante procura num território e o que esse território quer comunicar sobre si próprio.
“A gastronomia, mediada pelas plataformas digitais, converte-se em linguagem global de identidade territorial e sustentabilidade.” (p. 10)
Portugal, que tem vindo a investir em projetos de “destinos turísticos inteligentes”, pode inspirar-se neste modelo para articular gastronomia, digitalização e património num sistema de promoção coerente e sustentável — transformando dados em estratégia, e identidade em valor partilhado.
Referência: Martins-Rodal, B., & Patiño Romarís, C. A. (2025). Gastronomic Tourism and Digital Place Marketing: Google Trends Evidence from Galicia (Spain). World, 6(4), 135. https://doi.org/10.3390/world6040135

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